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Nação do Brasil > Notícias > Bolsonaro > ‘Doutrina Donroe’ oferece à ultradireita latina uma narrativa de guerra total
Bolsonaro

‘Doutrina Donroe’ oferece à ultradireita latina uma narrativa de guerra total

Nação do Brasil
Last updated: novembro 20, 2025 1:39 pm
Nação do Brasil - Nação do Brasil
30 Min Read
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A recente chegada às cercanias da Venezuela do porta-aviões estadunidense Gerald R. Ford, considerado o maior e mais poderoso do mundo, tornou ainda mais palpável a possibilidade de uma intervenção militar do governo Trump contra o regime comandado por Nicolás Maduro.

A escalada na tensão entre EUA e Venezuela é parte do que se desenha como a estratégia geopolítica de Donald Trump para com a América Latina e o Caribe. Decidido a resgatar a combalida hegemonia estadunidense no continente americano, Trump e seus ultraconservadores secretários de Estado (Marco Rubio) e da Guerra (Pete Hegseth), vêm exibindo as armas do seu repertório de hard power: tarifaço para estrangular economias de países rivais, continuidade ao rígido embargo contra Cuba, estímulo à chamada ‘guerra híbrida’ (como indicam os violentos protestos contra a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum), a ‘descertificação’ do governo colombiano de Gustavo Petro (acusado de favorecer o narcotráfico) e, por fim, a mobilização militar contra a Venezuela.   

Desde o início do século XX, foram várias as reinterpretações da chamada Doutrina Monroe que, ainda em 1823, definiu que a “América era para os americanos”. O lema, que naquele momento histórico era ambíguo, pois a maioria do continente passava por processos de independência nacional, deixou de ter dupla interpretação a partir do governo de Theodore Roosevelt (1901-1909) e da sua “política do Big Stick” que, sem sutileza, estabelecia um novo slogan: “fale manso e carregue um porrete”. O projeto era o de submeter todo continente americano à hegemonia dos EUA.

A postura de Trump sobre o tema no Brasil permanece moderada. Mas é possível vislumbrar o endurecimento dessa narrativa em 2026

Outros presidentes atualizaram a Doutrina Monroe, adaptando-a às necessidades do seu tempo, mas com o mesmo firme propósito de defender os interesses do capitalismo estadunidense na América Latina e no Caribe, em estreita aliança com as oligarquias e elites de cada país.

Do “porrete” do primeiro Roosevelt, os EUA passaram, nos anos 1930, à “política da boa vizinhança” de seu primo, Franklin Delano. Depois da Segunda Guerra Mundial, o governo de Harry Truman apresentou a sua releitura voltada à “contenção do socialismo” no continente, ajudando, com isso, a criar a Guerra Fria. Foi o início da era das ditaduras militares, dos golpes de Estado apoiados pelos EUA, das torturas e da “guerra suja” sempre “em nome da democracia e da civilização ocidental”.

Nos anos 1990, com o fim da disputa entre EUA e URSS, muitos acreditaram que a “história tinha acabado” e que restava aguardar a universalização do capitalismo liberal. Bill Clinton surfou esse clima ao combinar “intervenções humanitárias”, defesa da globalização e patrocínio das “revoluções coloridas” no espaço pós-soviético.

Na América Latina, parecia que o tabuleiro estava resolvido: democracias neoliberais, guerrilhas em retrocesso, oposições enfraquecidas e populações seduzidas pelo consumo. O narcotráfico seria contido, imaginava-se, com “Planos Colômbia” e militarização da segurança pública.

Mas a história seguiu seu curso. O capitalismo mergulhou em crises sucessivas, ampliando miséria e instabilidade; os EUA não se tornaram a hiperpotência anunciada; a China ascendeu; a Rússia voltou ao jogo; e uma “maré rosa” tomou a América do Sul, criando, pela primeira vez, uma coesão progressista regional.

No plano mundial, após os atentados de 11 de setembro, a doutrina de segurança dos EUA passou a girar em torno da “guerra ao terror”, relegando a América Latina ao segundo plano. Ainda assim, houve quem se beneficiasse: Álvaro Uribe reativou o discurso do narcoterrorismo para direcionar recursos do Plano Colômbia contra as FARC — estratégia que culminou no acordo de paz firmado por Juan Manuel Santos, em 2016.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.
Foto: Juan BARRETO / AFP

“Doutrina Donroe”

Em artigo recente para o New York Times, Katrin Bennhold argumenta que Trump retoma a tradição das doutrinas de influência sobre a América Latina recuperando o princípio esboçado por James Monroe. A jornalista, provocativamente, chama o conjunto de diretrizes internacionais de Trump de “Doutrina Donroe”.

A ‘guerra às drogas’, turbinada pelos dólares da ‘guerra ao terror’, aprofundou um processo em curso desde os anos 1970 que consiste na pressão diplomática, econômica e militar dos EUA para que os países da América Latina e do Caribe transformem as suas forças armadas em polícias militares anti-narcotráfico. Trump, agora, retoma essa seara identificando o “narcoterrorismo” como ameaça continental. Seria essa a linha básica da “Doutrina Donroe”?

No México, nos Andes e na América Central, a diretriz da militarização do combate ao narcotráfico tornou-se a regra, com resultados desastrosos. Na Colômbia, o ataque aos grandes cartéis de Medellín e Cali e às FARC provocou a proliferação de grupos criminosos menores, atuando de forma descentralizada e competindo violentamente por zonas de produção de coca/cocaína e rotas internacionais.

O enfraquecimento dos narcos colombianos ofereceu oportunidade para os narcos mexicanos controlarem a distribuição de cocaína no mercado estadunidense, além de inovar na produção de drogas sintéticas, como o fentanil e as metanfetaminas. A hiper-militarização do combate aos cartéis mexicanos, a partir de 2007, também financiada pelos EUA, provocou não o enfraquecimento do narcotráfico, mas a depuração dos suas organizações ilegais, com grupos menores destruídos ou absorvidos por cartéis maiores, mais poderosos e com imenso poder econômico que, atualmente, dominam regiões inteiras do país.

A doutrina da militarização antidrogas ainda estimulou o uso de rotas antes menos lucrativas para o tráfico, no Equador e na Venezuela, levando àqueles países o já tão conhecido processo de fortalecimento de gangues prisionais que se converteram em violentas organizações que controlam bairros inteiros das grandes cidades, intervém na vida política, penetram as instituições públicas e na economia privada.

Os mercados centrais para o consumo de drogas ilegais — EUA e Europa — seguiram aquecidos. A produção de cocaína na Colômbia, Peru e Bolívia atingiu os maiores níveis históricos na década de 2010 e mercados regionais, com destaque para o brasileiro, não param de crescer. Aqui, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) fortaleceram-se, passando a disputar — geralmente, com violência — territórios e rotas em todo o país e para além das fronteiras.

A combinação entre alta demanda e combate ao narcotráfico focado apenas na repressão levou à explosão de violência em todo o continente que, hoje, se tornou a região mais violenta do mundo sem contar com nenhuma guerra ou guerra civil em andamento.

Agora, para mostrar força num continente que já tem a China como principal parceira comercial, Trump mobiliza forças militares com a justificativa de combater um “narco-Estado”. A acusação que pesa contra Maduro e a sua cúpula civil e militar não é nova. Há mais de uma década, desde o governo Obama, o regime bolivariano é indicado como sendo não apenas infiltrado pelo narcotráfico, mas como narcotraficante em si mesmo.

No entanto, anos de investigação e de contato com pesquisadores venezuelanos/as de distintas procedências e posicionamentos político-ideológicos tem me oferecido sérias dúvidas de que exista algo como o famoso “Cartel de los Soles”. A alegação é de que generais das Forças Armadas Bolivarianas seriam, eles mesmos, líderes de uma organização narcotraficante. Daí o nome da suposta organização, pois, na Venezuela, ao invés de estrelas no ombro, os generais levam pequenos sóis. Se for verdade, o regime bolivariano nada mais seria do que uma grande organização criminosa, transformando o país no tal “narco-Estado”.

Trump retomou a narrativa do “Cartel de los Soles” ao mesmo tempo em que declarou o Tren de Aragua — facção criminosa surgida em penitenciárias venezuelanas e com trajetória similar ao PCC e ao CV — em grupo terrorista. Essa organização, que se projetou internacionalmente aproveitando a diáspora dos quase oito milhões de venezuelanos que deixaram o país desde 2018, tornou-se o novo fantasma a amedrontar as sociedades sul-americanas, da Colômbia ao Chile. A

inda que o real poder do Tren de Aragua esteja em debate — e de que a existência do “Cartel de los Soles” careça de provas convincentes —, a imagem de ambos é suficientemente forte para que a narrativa do “narcoterrorismo” seja retomada, com grande efeito simbólico. Afinal, o que poderia ser mais ameaçador do que a hibridização de dois monstros como o narcotráfico e o terrorismo, circundados por um ‘narcoestado’?

Trump vs. Brasil?

Com intervenção militar na Venezuela ou não, a retórica da guerra contra o narcotráfico ganha, no momento, uma importante atualização sob o governo de Donald Trump. Se durante a Guerra Fria, a chegada ao poder (ou a ameaça de chegada) de grupos políticos nacionalistas de esquerda ou socialistas era a senha para a atuação direta ou indireta dos EUA para providenciar mudanças de regime (regime change), a justificativa atual parece ser a guerra contra o “narcoterrorismo”.

Países que rivalizem minimamente ou que apenas não se submetam à obediência total exigida por Trump, correm o risco de serem acusados de promover, dar guarida ou de serem incapazes de enfrentar o “narcoterrorismo”.

Assim tem sido nas movimentações contra a Venezuela de Maduro e contra a Colômbia de Petro. Algo similar se desenha contra o México de Claudia Sheinbaum, como indicam os protestos da Geração Z que pretenderam questionar uma presidenta que conta com 79% de aprovação popular e que tem enfrentado de igual para igual as pressões políticas, securitárias e tarifárias de Trump. A movimentação nas mídias sociais pro-Trump contra a alegada vitória do “narcoterrorismo” sobre o governo de Sheinbaum foi fundamental para a convocação maciça para as manifestações do dia 16 de novembro.

E no Brasil? Algo evidente relacionado à Operação Contenção que resultou em 121 mortos no Complexo da Penha foi o seu propósito político-eleitoral. O governador do Rio de Janeiro vinha com histórico de baixa popularidade, o que lhe colocava não apenas em desvantagem para pretensões eleitorais imediatas, mas o inviabilizava na disputa que existe entre os governadores bolsonaristas pela herança do já condenado e preso Jair Bolsonaro.

Também não é segredo que a operação e a mobilização da maioria dos governadores bolsonaristas para apoiar Castro vieram num momento em que Lula registrava um aumento significativo na sua aprovação popular, revertendo um quadro de crítica e descrença no seu projeto político. O crescimento da popularidade de Lula deu-se, principalmente, após a forma com que liderou a reação do governo brasileiro ao tarifaço imposto por Trump, com resultados favoráveis em termos de imagem internacional e de recuo relativo dos EUA.

Após a matança, o governo federal apresentou o projeto de Lei Antifacção e ressuscitou a PEC da Segurança Pública, defendendo inteligência e federalização para enfrentar o crime organizado. A ultradireita reagiu com a indicação de Guilherme Derrite para relatar o projeto, tentando classificar facções como grupos terroristas. O governo resistiu, a PF se viu atingida e vieram recuos sucessivos. Mas a intenção da ultradireita de enquadrar o crime organizado como terrorismo — já expressa pelo governo de Cláudio Castro no início de 2025 — voltou ao centro do debate. Uma semana depois, James Sparks, diretor da DEA, enviou carta louvando a operação e lamentando as mortes de policiais.

A postura de Trump sobre o tema no Brasil permanece moderada, em contraste com a pressão exercida sobre México, Colômbia e Venezuela. Mas é possível vislumbrar o endurecimento dessa narrativa à medida que se aproxima o ciclo eleitoral.

Pesquisa da OCDE mostra que corrupção e insegurança são as maiores preocupações dos latino-americanos, num cenário de baixa confiança em governos e alta aprovação das Forças Armadas.

Esse ambiente favorece discursos de repressão total, que passam pelo encarceramento em massa ao estilo Bukele e pela militarização extrema da segurança.

De todo modo, o discurso securitário tende a dominar o ciclo eleitoral que começa no Chile e segue para Colômbia e Brasil. A “Doutrina Donroe” ganha força porque se encaixa na disputa entre centro-esquerda e ultradireita que atravessa o continente. A centro-esquerda só terá fôlego se apresentar propostas convincentes contra o crime organizado — um desafio num ambiente de pressão estadunidense, impaciência social, poder das facções e força política da extrema-direita.

A recente chegada às cercanias da Venezuela do porta-aviões estadunidense Gerald R. Ford, considerado o maior e mais poderoso do mundo, tornou ainda mais palpável a possibilidade de uma intervenção militar do governo Trump contra o regime comandado por Nicolás Maduro.

A escalada na tensão entre EUA e Venezuela é parte do que se desenha como a estratégia geopolítica de Donald Trump para com a América Latina e o Caribe. Decidido a resgatar a combalida hegemonia estadunidense no continente americano, Trump e seus ultraconservadores secretários de Estado (Marco Rubio) e da Guerra (Pete Hegseth), vêm exibindo as armas do seu repertório de hard power: tarifaço para estrangular economias de países rivais, continuidade ao rígido embargo contra Cuba, estímulo à chamada ‘guerra híbrida’ (como indicam os violentos protestos contra a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum), a ‘descertificação’ do governo colombiano de Gustavo Petro (acusado de favorecer o narcotráfico) e, por fim, a mobilização militar contra a Venezuela.   

Desde o início do século XX, foram várias as reinterpretações da chamada Doutrina Monroe que, ainda em 1823, definiu que a “América era para os americanos”. O lema, que naquele momento histórico era ambíguo, pois a maioria do continente passava por processos de independência nacional, deixou de ter dupla interpretação a partir do governo de Theodore Roosevelt (1901-1909) e da sua “política do Big Stick” que, sem sutileza, estabelecia um novo slogan: “fale manso e carregue um porrete”. O projeto era o de submeter todo continente americano à hegemonia dos EUA.

A postura de Trump sobre o tema no Brasil permanece moderada. Mas é possível vislumbrar o endurecimento dessa narrativa em 2026

Outros presidentes atualizaram a Doutrina Monroe, adaptando-a às necessidades do seu tempo, mas com o mesmo firme propósito de defender os interesses do capitalismo estadunidense na América Latina e no Caribe, em estreita aliança com as oligarquias e elites de cada país.

Do “porrete” do primeiro Roosevelt, os EUA passaram, nos anos 1930, à “política da boa vizinhança” de seu primo, Franklin Delano. Depois da Segunda Guerra Mundial, o governo de Harry Truman apresentou a sua releitura voltada à “contenção do socialismo” no continente, ajudando, com isso, a criar a Guerra Fria. Foi o início da era das ditaduras militares, dos golpes de Estado apoiados pelos EUA, das torturas e da “guerra suja” sempre “em nome da democracia e da civilização ocidental”.

Nos anos 1990, com o fim da disputa entre EUA e URSS, muitos acreditaram que a “história tinha acabado” e que restava aguardar a universalização do capitalismo liberal. Bill Clinton surfou esse clima ao combinar “intervenções humanitárias”, defesa da globalização e patrocínio das “revoluções coloridas” no espaço pós-soviético.

Na América Latina, parecia que o tabuleiro estava resolvido: democracias neoliberais, guerrilhas em retrocesso, oposições enfraquecidas e populações seduzidas pelo consumo. O narcotráfico seria contido, imaginava-se, com “Planos Colômbia” e militarização da segurança pública.

Mas a história seguiu seu curso. O capitalismo mergulhou em crises sucessivas, ampliando miséria e instabilidade; os EUA não se tornaram a hiperpotência anunciada; a China ascendeu; a Rússia voltou ao jogo; e uma “maré rosa” tomou a América do Sul, criando, pela primeira vez, uma coesão progressista regional.

No plano mundial, após os atentados de 11 de setembro, a doutrina de segurança dos EUA passou a girar em torno da “guerra ao terror”, relegando a América Latina ao segundo plano. Ainda assim, houve quem se beneficiasse: Álvaro Uribe reativou o discurso do narcoterrorismo para direcionar recursos do Plano Colômbia contra as FARC — estratégia que culminou no acordo de paz firmado por Juan Manuel Santos, em 2016.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.
Foto: Juan BARRETO / AFP

“Doutrina Donroe”

Em artigo recente para o New York Times, Katrin Bennhold argumenta que Trump retoma a tradição das doutrinas de influência sobre a América Latina recuperando o princípio esboçado por James Monroe. A jornalista, provocativamente, chama o conjunto de diretrizes internacionais de Trump de “Doutrina Donroe”.

A ‘guerra às drogas’, turbinada pelos dólares da ‘guerra ao terror’, aprofundou um processo em curso desde os anos 1970 que consiste na pressão diplomática, econômica e militar dos EUA para que os países da América Latina e do Caribe transformem as suas forças armadas em polícias militares anti-narcotráfico. Trump, agora, retoma essa seara identificando o “narcoterrorismo” como ameaça continental. Seria essa a linha básica da “Doutrina Donroe”?

No México, nos Andes e na América Central, a diretriz da militarização do combate ao narcotráfico tornou-se a regra, com resultados desastrosos. Na Colômbia, o ataque aos grandes cartéis de Medellín e Cali e às FARC provocou a proliferação de grupos criminosos menores, atuando de forma descentralizada e competindo violentamente por zonas de produção de coca/cocaína e rotas internacionais.

O enfraquecimento dos narcos colombianos ofereceu oportunidade para os narcos mexicanos controlarem a distribuição de cocaína no mercado estadunidense, além de inovar na produção de drogas sintéticas, como o fentanil e as metanfetaminas. A hiper-militarização do combate aos cartéis mexicanos, a partir de 2007, também financiada pelos EUA, provocou não o enfraquecimento do narcotráfico, mas a depuração dos suas organizações ilegais, com grupos menores destruídos ou absorvidos por cartéis maiores, mais poderosos e com imenso poder econômico que, atualmente, dominam regiões inteiras do país.

A doutrina da militarização antidrogas ainda estimulou o uso de rotas antes menos lucrativas para o tráfico, no Equador e na Venezuela, levando àqueles países o já tão conhecido processo de fortalecimento de gangues prisionais que se converteram em violentas organizações que controlam bairros inteiros das grandes cidades, intervém na vida política, penetram as instituições públicas e na economia privada.

Os mercados centrais para o consumo de drogas ilegais — EUA e Europa — seguiram aquecidos. A produção de cocaína na Colômbia, Peru e Bolívia atingiu os maiores níveis históricos na década de 2010 e mercados regionais, com destaque para o brasileiro, não param de crescer. Aqui, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) fortaleceram-se, passando a disputar — geralmente, com violência — territórios e rotas em todo o país e para além das fronteiras.

A combinação entre alta demanda e combate ao narcotráfico focado apenas na repressão levou à explosão de violência em todo o continente que, hoje, se tornou a região mais violenta do mundo sem contar com nenhuma guerra ou guerra civil em andamento.

Agora, para mostrar força num continente que já tem a China como principal parceira comercial, Trump mobiliza forças militares com a justificativa de combater um “narco-Estado”. A acusação que pesa contra Maduro e a sua cúpula civil e militar não é nova. Há mais de uma década, desde o governo Obama, o regime bolivariano é indicado como sendo não apenas infiltrado pelo narcotráfico, mas como narcotraficante em si mesmo.

No entanto, anos de investigação e de contato com pesquisadores venezuelanos/as de distintas procedências e posicionamentos político-ideológicos tem me oferecido sérias dúvidas de que exista algo como o famoso “Cartel de los Soles”. A alegação é de que generais das Forças Armadas Bolivarianas seriam, eles mesmos, líderes de uma organização narcotraficante. Daí o nome da suposta organização, pois, na Venezuela, ao invés de estrelas no ombro, os generais levam pequenos sóis. Se for verdade, o regime bolivariano nada mais seria do que uma grande organização criminosa, transformando o país no tal “narco-Estado”.

Trump retomou a narrativa do “Cartel de los Soles” ao mesmo tempo em que declarou o Tren de Aragua — facção criminosa surgida em penitenciárias venezuelanas e com trajetória similar ao PCC e ao CV — em grupo terrorista. Essa organização, que se projetou internacionalmente aproveitando a diáspora dos quase oito milhões de venezuelanos que deixaram o país desde 2018, tornou-se o novo fantasma a amedrontar as sociedades sul-americanas, da Colômbia ao Chile. A

inda que o real poder do Tren de Aragua esteja em debate — e de que a existência do “Cartel de los Soles” careça de provas convincentes —, a imagem de ambos é suficientemente forte para que a narrativa do “narcoterrorismo” seja retomada, com grande efeito simbólico. Afinal, o que poderia ser mais ameaçador do que a hibridização de dois monstros como o narcotráfico e o terrorismo, circundados por um ‘narcoestado’?

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Com intervenção militar na Venezuela ou não, a retórica da guerra contra o narcotráfico ganha, no momento, uma importante atualização sob o governo de Donald Trump. Se durante a Guerra Fria, a chegada ao poder (ou a ameaça de chegada) de grupos políticos nacionalistas de esquerda ou socialistas era a senha para a atuação direta ou indireta dos EUA para providenciar mudanças de regime (regime change), a justificativa atual parece ser a guerra contra o “narcoterrorismo”.

Países que rivalizem minimamente ou que apenas não se submetam à obediência total exigida por Trump, correm o risco de serem acusados de promover, dar guarida ou de serem incapazes de enfrentar o “narcoterrorismo”.

Assim tem sido nas movimentações contra a Venezuela de Maduro e contra a Colômbia de Petro. Algo similar se desenha contra o México de Claudia Sheinbaum, como indicam os protestos da Geração Z que pretenderam questionar uma presidenta que conta com 79% de aprovação popular e que tem enfrentado de igual para igual as pressões políticas, securitárias e tarifárias de Trump. A movimentação nas mídias sociais pro-Trump contra a alegada vitória do “narcoterrorismo” sobre o governo de Sheinbaum foi fundamental para a convocação maciça para as manifestações do dia 16 de novembro.

E no Brasil? Algo evidente relacionado à Operação Contenção que resultou em 121 mortos no Complexo da Penha foi o seu propósito político-eleitoral. O governador do Rio de Janeiro vinha com histórico de baixa popularidade, o que lhe colocava não apenas em desvantagem para pretensões eleitorais imediatas, mas o inviabilizava na disputa que existe entre os governadores bolsonaristas pela herança do já condenado e preso Jair Bolsonaro.

Também não é segredo que a operação e a mobilização da maioria dos governadores bolsonaristas para apoiar Castro vieram num momento em que Lula registrava um aumento significativo na sua aprovação popular, revertendo um quadro de crítica e descrença no seu projeto político. O crescimento da popularidade de Lula deu-se, principalmente, após a forma com que liderou a reação do governo brasileiro ao tarifaço imposto por Trump, com resultados favoráveis em termos de imagem internacional e de recuo relativo dos EUA.

Após a matança, o governo federal apresentou o projeto de Lei Antifacção e ressuscitou a PEC da Segurança Pública, defendendo inteligência e federalização para enfrentar o crime organizado. A ultradireita reagiu com a indicação de Guilherme Derrite para relatar o projeto, tentando classificar facções como grupos terroristas. O governo resistiu, a PF se viu atingida e vieram recuos sucessivos. Mas a intenção da ultradireita de enquadrar o crime organizado como terrorismo — já expressa pelo governo de Cláudio Castro no início de 2025 — voltou ao centro do debate. Uma semana depois, James Sparks, diretor da DEA, enviou carta louvando a operação e lamentando as mortes de policiais.

A postura de Trump sobre o tema no Brasil permanece moderada, em contraste com a pressão exercida sobre México, Colômbia e Venezuela. Mas é possível vislumbrar o endurecimento dessa narrativa à medida que se aproxima o ciclo eleitoral.

Pesquisa da OCDE mostra que corrupção e insegurança são as maiores preocupações dos latino-americanos, num cenário de baixa confiança em governos e alta aprovação das Forças Armadas.

Esse ambiente favorece discursos de repressão total, que passam pelo encarceramento em massa ao estilo Bukele e pela militarização extrema da segurança.

De todo modo, o discurso securitário tende a dominar o ciclo eleitoral que começa no Chile e segue para Colômbia e Brasil. A “Doutrina Donroe” ganha força porque se encaixa na disputa entre centro-esquerda e ultradireita que atravessa o continente. A centro-esquerda só terá fôlego se apresentar propostas convincentes contra o crime organizado — um desafio num ambiente de pressão estadunidense, impaciência social, poder das facções e força política da extrema-direita.

FONTE: Carta Capital

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