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Nação do Brasil > Notícias > Bolsonaro > Efeitos colaterais
Bolsonaro

Efeitos colaterais

Nação do Brasil
Last updated: setembro 18, 2026 8:22 am
Nação do Brasil - Nação do Brasil
18 Min Read
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Por Leonardo Avritzer*

Os últimos 120 dias foram marcados por fortes variações nas intenções de voto aferidas pelas pesquisas de opinião pública para os dois principais candidatos à Presidência, Lula e Flávio Bolsonaro. É possível afirmar que a principal variável associada a essas oscilações está relacionada às revelações decorrentes de diferentes inquéritos da Polícia Federal e à crise no STF.

A revelação sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ocorrida em 13 de maio deste ano, interrompeu um processo de estreitamento da diferença nas intenções de voto entre o presidente Lula e o senador do PL, fazendo com que a distância entre os dois alcançasse a marca de 10 pontos porcentuais, na pesquisa Datafolha dos dias 17 e 18 de junho. A partir do momento em que André Mendonça começou, porém, a divulgar revelações relacionadas ao inquérito do INSS, envolvendo o filho do presidente Lula e uma conhecida lobista em Brasília, essa diferença começou novamente a diminuir, até que as pesquisas passaram a apontar um empate técnico entre os dois candidatos na intenção de voto para o primeiro turno. O gráfico mostra essas variações e permite observar a influência de cada uma dessas revelações sobre as intenções de voto. Mais que isso, é interessante perceber que essas oscilações também se refletem na própria avaliação do governo, na medida em que o momento de maior distância entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno coincidiu com o perío­do de maior aprovação do governo Lula.

As ações de Mendonça permitiram o levantamento seletivo de sigilo sobre as investigações do INSS e do Master. Mendonça não apenas impôs sigilo sobre boa parte das investigações que dizem respeito a Flávio Bolsonaro, mas investigou, sem pedir autorização ao presidente da Corte ou ao plenário, o ministro ­Alexandre de Moraes. A partir daí, tomou duas­ atitudes distintas: não retirou o sigilo das investigações relativas ao candidato do PL e retirou o sigilo daquelas relacionadas a Alexandre de Moraes. Essas ações implicaram uma resposta do próprio Moraes, levando a uma investigação sobre as ações de Mendonça, cujo sigilo também foi levantado. Isso foi suficiente para abrir a crise mais profunda do STF desde a promulgação da Constituição de 1988.

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No que diz respeito à intervenção de Edson Fachin no conflito entre os dois ministros, vale mencionar que o histórico do presidente do STF em relação às disputas políticas na Corte é muito ruim. Mesmo diante de fortes evidências da seletividade da Operação Lava Jato em relação aos processos do ex-presidente Lula, Fachin se recusou a conter Moro, até que as ações de um hacker foram suficientes para revelar aquilo que o Brasil sabia e ­Fachin se recusava a admitir: o enorme conluio entre o juiz e o Ministério Público e a seletividade de suas ações. A principal diferença entre as ações do STF na Lava Jato em 2018 e hoje é formada pela presença de um conjunto de ministros que se alinham ao campo progressista e não estão envolvidos com o Banco Master, como é o caso de Cristiano Zanin e Flávio Dino.

A sessão de julgamento da Petição 16.662 pelo plenário, na terça-feira 15, foi inconclusiva, uma vez que o pedido de vista por parte de Dino impediu a sua continuidade. Ainda assim, é possível fazer algumas observações importantes em relação ao que ocorreu na sessão e que, provavelmente, terá impacto, nas próximas semanas, no clima político do País.

Em primeiro lugar, ficou clara, mais uma vez, a incapacidade de Fachin de liderar a Corte. O início da sessão foi marcado por uma posição antagônica e corretiva de Dino em relação ao presidente do tribunal, na medida em que foi Dino quem formulou tanto as questões regimentais fundamentais quanto o argumento da conectividade, além de ter defendido a própria preservação da instituição ao formular o pedido de vista. A decisão de Dino indica que os fatos graves que atingem o STF só serão julgados depois da eleição.

A redução da diferença entre o petista e Flávio Bolsonaro nas pesquisas se deve à ação de André Mendonça

Em segundo lugar, é pertinente observar que a correlação de forças no plenário coloca Mendonça em posição desfavorável. Primeiramente, existe o grupo dos impedidos, entre os quais se destacam José Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, que desfalca um grupo mais restrito, próximo a Mendonça. Em seguida, destaca-se a coordenação entre os quatro ministros considerados mais progressistas do Supremo, dois deles indicados pelo presidente Lula e os outros dois indicados pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Esse grupo formulou questões de ordem bastante amplas e questões procedimentais também abrangentes e pareceu ser o mais forte ao longo da sessão.

O terceiro grupo, por sua vez, formou-se pela junção dos dois ministros mais conservadores, Mendonça e Luiz Fux, com dois ministros mais centristas, que não participaram ativamente dos grandes embates da sessão, especialmente daqueles relacionados às atitudes de Mendonça. O quanto este grupo estará unido na sessão da quarta-feira 23 é difícil determinar.

Por último, cabe uma observação relacionada à vulnerabilidade da imagem do Supremo diante da opinião pública. Esse assunto foi tratado por Cármen Lúcia, ainda que de forma superficial, sem abordar os elementos da concentração de poderes frequentemente indevida por ministros e de integrantes, como ela, que pautam suas declarações pelo efeito na opinião pública e não pelo direito. Os problemas do STF são estruturais e exigem uma reforma nas regras de funcionamento e nas prerrogativas da Corte. Nesse sentido, não deve ocorrer uma melhora na maneira como a opinião pública vai enxergar o Supremo, na medida em que os embates deverão continuar, assim como possíveis escaramuças entre os ministros. É possível supor que novas evidências possam surgir e que a palavra final em relação a essas questões estará muito mais no campo da interação entre alguns ministros, a Polícia Federal e a mídia do que propriamente no campo do Judiciário. Resta saber como o presidente Lula, provavelmente o mais afetado por esse impasse no Supremo Tribunal Federal, vai se posicionar e o quanto ele conseguirá desvincular sua candidatura da crise do STF. Desta resposta dependerá o resultado eleitoral. •


*Professor titular aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador do Observatório das Eleições.
**O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros, tanto no campo do financiamento quanto no campo da divulgação.

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Efeitos colaterais’

Por Leonardo Avritzer*

Os últimos 120 dias foram marcados por fortes variações nas intenções de voto aferidas pelas pesquisas de opinião pública para os dois principais candidatos à Presidência, Lula e Flávio Bolsonaro. É possível afirmar que a principal variável associada a essas oscilações está relacionada às revelações decorrentes de diferentes inquéritos da Polícia Federal e à crise no STF.

A revelação sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ocorrida em 13 de maio deste ano, interrompeu um processo de estreitamento da diferença nas intenções de voto entre o presidente Lula e o senador do PL, fazendo com que a distância entre os dois alcançasse a marca de 10 pontos porcentuais, na pesquisa Datafolha dos dias 17 e 18 de junho. A partir do momento em que André Mendonça começou, porém, a divulgar revelações relacionadas ao inquérito do INSS, envolvendo o filho do presidente Lula e uma conhecida lobista em Brasília, essa diferença começou novamente a diminuir, até que as pesquisas passaram a apontar um empate técnico entre os dois candidatos na intenção de voto para o primeiro turno. O gráfico mostra essas variações e permite observar a influência de cada uma dessas revelações sobre as intenções de voto. Mais que isso, é interessante perceber que essas oscilações também se refletem na própria avaliação do governo, na medida em que o momento de maior distância entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno coincidiu com o perío­do de maior aprovação do governo Lula.

As ações de Mendonça permitiram o levantamento seletivo de sigilo sobre as investigações do INSS e do Master. Mendonça não apenas impôs sigilo sobre boa parte das investigações que dizem respeito a Flávio Bolsonaro, mas investigou, sem pedir autorização ao presidente da Corte ou ao plenário, o ministro ­Alexandre de Moraes. A partir daí, tomou duas­ atitudes distintas: não retirou o sigilo das investigações relativas ao candidato do PL e retirou o sigilo daquelas relacionadas a Alexandre de Moraes. Essas ações implicaram uma resposta do próprio Moraes, levando a uma investigação sobre as ações de Mendonça, cujo sigilo também foi levantado. Isso foi suficiente para abrir a crise mais profunda do STF desde a promulgação da Constituição de 1988.

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A sessão de julgamento da Petição 16.662 pelo plenário, na terça-feira 15, foi inconclusiva, uma vez que o pedido de vista por parte de Dino impediu a sua continuidade. Ainda assim, é possível fazer algumas observações importantes em relação ao que ocorreu na sessão e que, provavelmente, terá impacto, nas próximas semanas, no clima político do País.

Em primeiro lugar, ficou clara, mais uma vez, a incapacidade de Fachin de liderar a Corte. O início da sessão foi marcado por uma posição antagônica e corretiva de Dino em relação ao presidente do tribunal, na medida em que foi Dino quem formulou tanto as questões regimentais fundamentais quanto o argumento da conectividade, além de ter defendido a própria preservação da instituição ao formular o pedido de vista. A decisão de Dino indica que os fatos graves que atingem o STF só serão julgados depois da eleição.

A redução da diferença entre o petista e Flávio Bolsonaro nas pesquisas se deve à ação de André Mendonça

Em segundo lugar, é pertinente observar que a correlação de forças no plenário coloca Mendonça em posição desfavorável. Primeiramente, existe o grupo dos impedidos, entre os quais se destacam José Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, que desfalca um grupo mais restrito, próximo a Mendonça. Em seguida, destaca-se a coordenação entre os quatro ministros considerados mais progressistas do Supremo, dois deles indicados pelo presidente Lula e os outros dois indicados pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Esse grupo formulou questões de ordem bastante amplas e questões procedimentais também abrangentes e pareceu ser o mais forte ao longo da sessão.

O terceiro grupo, por sua vez, formou-se pela junção dos dois ministros mais conservadores, Mendonça e Luiz Fux, com dois ministros mais centristas, que não participaram ativamente dos grandes embates da sessão, especialmente daqueles relacionados às atitudes de Mendonça. O quanto este grupo estará unido na sessão da quarta-feira 23 é difícil determinar.

Por último, cabe uma observação relacionada à vulnerabilidade da imagem do Supremo diante da opinião pública. Esse assunto foi tratado por Cármen Lúcia, ainda que de forma superficial, sem abordar os elementos da concentração de poderes frequentemente indevida por ministros e de integrantes, como ela, que pautam suas declarações pelo efeito na opinião pública e não pelo direito. Os problemas do STF são estruturais e exigem uma reforma nas regras de funcionamento e nas prerrogativas da Corte. Nesse sentido, não deve ocorrer uma melhora na maneira como a opinião pública vai enxergar o Supremo, na medida em que os embates deverão continuar, assim como possíveis escaramuças entre os ministros. É possível supor que novas evidências possam surgir e que a palavra final em relação a essas questões estará muito mais no campo da interação entre alguns ministros, a Polícia Federal e a mídia do que propriamente no campo do Judiciário. Resta saber como o presidente Lula, provavelmente o mais afetado por esse impasse no Supremo Tribunal Federal, vai se posicionar e o quanto ele conseguirá desvincular sua candidatura da crise do STF. Desta resposta dependerá o resultado eleitoral. •


*Professor titular aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador do Observatório das Eleições.
**O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros, tanto no campo do financiamento quanto no campo da divulgação.

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Efeitos colaterais’

FONTE: Carta Capital

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