Por Carmem Leitão e Leonardo Avritzer*
Às vésperas da eleição, alertas de segurança estrangeiros podem deslocar o debate sobre o futuro do Brasil para uma percepção de insegurança e desconfiança. O peso diplomático de quem anuncia o perigo amplia sua repercussão. Respeitar a soberania e rejeitar a intervenção externa, princípios firmados em acordos internacionais, exigem examinar os fundamentos dessas iniciativas e seus possíveis efeitos eleitorais. Nas horas finais da campanha de 2026, essa exigência deve ser tão rigorosa quanto a aplicada às mensagens das candidaturas.
A representação dos Estados Unidos no Brasil anunciou, em 1º de outubro, a suspensão dos serviços consulares a partir do dia seguinte, por razões de segurança, mantendo assistência emergencial remota. O comunicado não anuncia a retirada de diplomatas nem a evacuação. Já o aviso do Canadá recomenda evitar manifestações e aglomerações eleitorais, sem anunciar o fechamento da própria representação. Sua página também reproduz o comunicado americano, o que não equivale à adoção da mesma medida.
A Austrália anunciou o fechamento da embaixada em Brasília apenas em 2 de outubro e recomendou evitar instalações americanas. Reino Unido, Irlanda e Alemanha emitiram avisos com datas e alcances distintos; o do Reino Unido tem data para 29 de setembro. A diversidade partidária desses governos não permite presumir adesão automática ao trumpismo. A Lupa desmentiu a alegação de que sete países estariam retirando suas embaixadas ou orientando seus cidadãos(as) a deixar o Brasil.
A Polícia Federal informou que cumpriu, na tarde de 2 de outubro, dois mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal para apurar suposto planejamento de atos contra instalações americanas. Não havia encontrado elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados nem identificado suspeitos ligados a organizações criminosas. A investigação, preventiva e sigilosa, prosseguia com a análise dos materiais apreendidos.
Em 3 de outubro, a PF negou ao Projeto Comprova ter produzido um informe ou relatório sobre a tentativa de golpe. A Abin também negou o alerta que lhe foi atribuído. O Consulado dos EUA em São Paulo informou usar regularmente alertas de segurança e cooperar com autoridades brasileiras, sem detalhar a ameaça. Essas respostas retiram sustentação a narrativas que apresentavam uma operação americana como conclusão da inteligência brasileira. O vazio informacional continua exigindo esclarecimento: uma ameaça investigada não equivale a uma ameaça confirmada, e uma medida consular não demonstra um plano de interferência eleitoral.
O contexto das relações com Washington impede que o episódio seja considerado isoladamente. Tarifas, pressões sobre instituições brasileiras e aproximações ao bolsonarismo dão razões concretas para a vigilância. Em julho de 2026, o representante comercial americano anunciou uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Na justificativa, incluiu críticas ao tratamento dado às empresas tecnológicas e à chamada censura ao discurso político. O documento não comprova a motivação da suspensão consular. Revela, porém, como disputas sobre informação e regulação podem se converter em condições impostas por uma potência à economia de outro país.
A contestação a esse padrão também parte de atores políticos dos próprios Estados Unidos. Em 24 de setembro, uma carta liderada pela deputada Delia Ramirez pediu respeito à soberania e à escolha eleitoral brasileira. A dos senadores Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch, datada de 28 e publicada no dia seguinte, criticou pressões econômicas, diplomáticas e políticas e cobrou reconhecimento do resultado certificado. Essas manifestações mostram que a preocupação com interferência não nasce exclusivamente da rivalidade entre as candidaturas brasileiras.
O Guardian relatou previsão de 1 milhão de dólares para “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”. Em 1º de outubro, a AGU pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que investigassem o possível financiamento, segundo a Agência Brasil. O pedido é relevante, mas não comprova a transferência, os beneficiários ou a execução. A apuração deve esclarecer a finalidade dos recursos e eventuais vínculos com ações de interferência.
Na repercussão crítica, Ricardo Leães, ouvido pelo Brasil de Fato, interpretou a produção de uma imagem de insegurança como um risco ao reconhecimento posterior da eleição. Em artigo sobre a dimensão geopolítica do pleito, Paulo Nogueira Batista Jr. examinou a soberania e as disputas por influência. Essas interpretações deslocam a análise das intenções declaradas para a correlação de forças e para os possíveis efeitos de gestos diplomáticos no momento de maior sensibilidade eleitoral.
A Amazon Watch publicou, em 2 de outubro, uma leitura crítica que relaciona a transparência diplomática, os interesses sobre a Amazônia e os direitos indígenas. Essa perspectiva lembra que a soberania disputada na eleição envolve territórios, recursos e direitos, cuja proteção transcende a competição entre candidaturas. A repercussão em diferentes veículos amplia a visibilidade das denúncias; as republicações, porém, não constituem confirmações independentes.
A história latino-americana oferece razões para manter a vigilância: Brasil, Chile e Nicarágua foram alvo de intervenções documentadas por parte dos Estados Unidos. A Bolívia acrescenta uma controvérsia atual. Roger Mariaca, então chefe do Ministério Público, foi preso em 30 de setembro, dois dias após ter seu visto americano revogado. Investigava Fernando Cerimedo, operador digital ligado a Milei e à família Bolsonaro. O governo boliviano acusa Mariaca de proteger narcotraficantes; ele atribuiu a revogação do visto às suas investigações, relação ainda sem comprovação independente. Essas comparações ajudam a investigar como o poder externo pode tentar definir o que será reconhecido como legítimo.
A inteligência artificial entra nessa disputa como mediadora da passagem entre documento, interpretação e certeza. Uma pessoa pode perguntar por que os serviços consulares foram suspensos ou se o Brasil corre risco de terrorismo. Se o sistema funde advertências genéricas, interpretações de especialistas e notícias sobre uma investigação em andamento, pode produzir uma narrativa coerente que nenhum documento sustenta integralmente. O problema vai além da fabricação de uma frase falsa. Está também em retirar marcas de autoria e de dúvida: a informação originalmente atribuída a uma fonte passa a aparecer como uma descrição impessoal da realidade.
O perigo se amplia quando essas respostas circulam nas redes sociais, recortadas em capturas de tela, vídeos ou mensagens, sem as perguntas e as ressalvas que lhes deram origem. Uma interpretação pode ganhar a aparência de confirmação independente por ter sido apresentada por uma plataforma de IA; sua repetição pode ser tomada como evidência. Nesse circuito, redes sociais e sistemas de inteligência artificial podem amplificar suspeitas, gerar uma percepção de insegurança e alimentar a contestação da legitimidade eleitoral. É preciso examinar o conteúdo e as condições de sua produção e circulação, incluindo o eventual uso coordenado dessas ferramentas para conferir credibilidade a alegações não comprovadas.
Os achados exploratórios do projeto IA & Eleições ajudam a formular esse problema. Na documentação consolidada em setembro, o Le Chat indicou Lula em junho e julho, passou a indicar Flávio Bolsonaro em pedidos genéricos de agosto e voltou a indicar Lula quando a pergunta enfatizou a soberania. Esses registros não permitem atribuir as diferenças a uma causa isolada, a uma atualização identificada ou a uma orientação partidária fixa. O achado é compatível com respostas sensíveis ao tema e à formulação, entre outras condições de interação. A pergunta e o contexto precisam acompanhar a resposta para que o público possa avaliar o alcance da resposta.
Nas próximas horas e após a votação, suspeitas não comprovadas não podem servir para desautorizar a escolha popular. Denúncias devem ser apuradas pelas instituições competentes e o resultado certificado deve ser respeitado. A soberania eleitoral é inegociável. Nenhuma potência tem o direito de condicionar a decisão brasileira a ameaças, sanções ou ao reconhecimento seletivo. Os Estados Unidos têm um histórico de intervenções em eleições latino-americanas. Essa tradição antidemocrática não pode ganhar terreno fértil neste momento crítico. Proteger a liberdade política exige vigilância sobre quem produz e faz circular as evidências. O Brasil não precisa de tutela estrangeira para decidir seu futuro.
___________
*Carmem Leitão é professora da Universidade Federal do Ceará e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Leonardo Avritzer é professor titular aposentado da UFMG.
O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros tanto no campo do financiamento quanto no da divulgação.
Por Carmem Leitão e Leonardo Avritzer*
Às vésperas da eleição, alertas de segurança estrangeiros podem deslocar o debate sobre o futuro do Brasil para uma percepção de insegurança e desconfiança. O peso diplomático de quem anuncia o perigo amplia sua repercussão. Respeitar a soberania e rejeitar a intervenção externa, princípios firmados em acordos internacionais, exigem examinar os fundamentos dessas iniciativas e seus possíveis efeitos eleitorais. Nas horas finais da campanha de 2026, essa exigência deve ser tão rigorosa quanto a aplicada às mensagens das candidaturas.
A representação dos Estados Unidos no Brasil anunciou, em 1º de outubro, a suspensão dos serviços consulares a partir do dia seguinte, por razões de segurança, mantendo assistência emergencial remota. O comunicado não anuncia a retirada de diplomatas nem a evacuação. Já o aviso do Canadá recomenda evitar manifestações e aglomerações eleitorais, sem anunciar o fechamento da própria representação. Sua página também reproduz o comunicado americano, o que não equivale à adoção da mesma medida.
A Austrália anunciou o fechamento da embaixada em Brasília apenas em 2 de outubro e recomendou evitar instalações americanas. Reino Unido, Irlanda e Alemanha emitiram avisos com datas e alcances distintos; o do Reino Unido tem data para 29 de setembro. A diversidade partidária desses governos não permite presumir adesão automática ao trumpismo. A Lupa desmentiu a alegação de que sete países estariam retirando suas embaixadas ou orientando seus cidadãos(as) a deixar o Brasil.
A Polícia Federal informou que cumpriu, na tarde de 2 de outubro, dois mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal para apurar suposto planejamento de atos contra instalações americanas. Não havia encontrado elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados nem identificado suspeitos ligados a organizações criminosas. A investigação, preventiva e sigilosa, prosseguia com a análise dos materiais apreendidos.
Em 3 de outubro, a PF negou ao Projeto Comprova ter produzido um informe ou relatório sobre a tentativa de golpe. A Abin também negou o alerta que lhe foi atribuído. O Consulado dos EUA em São Paulo informou usar regularmente alertas de segurança e cooperar com autoridades brasileiras, sem detalhar a ameaça. Essas respostas retiram sustentação a narrativas que apresentavam uma operação americana como conclusão da inteligência brasileira. O vazio informacional continua exigindo esclarecimento: uma ameaça investigada não equivale a uma ameaça confirmada, e uma medida consular não demonstra um plano de interferência eleitoral.
O contexto das relações com Washington impede que o episódio seja considerado isoladamente. Tarifas, pressões sobre instituições brasileiras e aproximações ao bolsonarismo dão razões concretas para a vigilância. Em julho de 2026, o representante comercial americano anunciou uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Na justificativa, incluiu críticas ao tratamento dado às empresas tecnológicas e à chamada censura ao discurso político. O documento não comprova a motivação da suspensão consular. Revela, porém, como disputas sobre informação e regulação podem se converter em condições impostas por uma potência à economia de outro país.
A contestação a esse padrão também parte de atores políticos dos próprios Estados Unidos. Em 24 de setembro, uma carta liderada pela deputada Delia Ramirez pediu respeito à soberania e à escolha eleitoral brasileira. A dos senadores Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch, datada de 28 e publicada no dia seguinte, criticou pressões econômicas, diplomáticas e políticas e cobrou reconhecimento do resultado certificado. Essas manifestações mostram que a preocupação com interferência não nasce exclusivamente da rivalidade entre as candidaturas brasileiras.
O Guardian relatou previsão de 1 milhão de dólares para “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”. Em 1º de outubro, a AGU pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que investigassem o possível financiamento, segundo a Agência Brasil. O pedido é relevante, mas não comprova a transferência, os beneficiários ou a execução. A apuração deve esclarecer a finalidade dos recursos e eventuais vínculos com ações de interferência.
Na repercussão crítica, Ricardo Leães, ouvido pelo Brasil de Fato, interpretou a produção de uma imagem de insegurança como um risco ao reconhecimento posterior da eleição. Em artigo sobre a dimensão geopolítica do pleito, Paulo Nogueira Batista Jr. examinou a soberania e as disputas por influência. Essas interpretações deslocam a análise das intenções declaradas para a correlação de forças e para os possíveis efeitos de gestos diplomáticos no momento de maior sensibilidade eleitoral.
A Amazon Watch publicou, em 2 de outubro, uma leitura crítica que relaciona a transparência diplomática, os interesses sobre a Amazônia e os direitos indígenas. Essa perspectiva lembra que a soberania disputada na eleição envolve territórios, recursos e direitos, cuja proteção transcende a competição entre candidaturas. A repercussão em diferentes veículos amplia a visibilidade das denúncias; as republicações, porém, não constituem confirmações independentes.
A história latino-americana oferece razões para manter a vigilância: Brasil, Chile e Nicarágua foram alvo de intervenções documentadas por parte dos Estados Unidos. A Bolívia acrescenta uma controvérsia atual. Roger Mariaca, então chefe do Ministério Público, foi preso em 30 de setembro, dois dias após ter seu visto americano revogado. Investigava Fernando Cerimedo, operador digital ligado a Milei e à família Bolsonaro. O governo boliviano acusa Mariaca de proteger narcotraficantes; ele atribuiu a revogação do visto às suas investigações, relação ainda sem comprovação independente. Essas comparações ajudam a investigar como o poder externo pode tentar definir o que será reconhecido como legítimo.
A inteligência artificial entra nessa disputa como mediadora da passagem entre documento, interpretação e certeza. Uma pessoa pode perguntar por que os serviços consulares foram suspensos ou se o Brasil corre risco de terrorismo. Se o sistema funde advertências genéricas, interpretações de especialistas e notícias sobre uma investigação em andamento, pode produzir uma narrativa coerente que nenhum documento sustenta integralmente. O problema vai além da fabricação de uma frase falsa. Está também em retirar marcas de autoria e de dúvida: a informação originalmente atribuída a uma fonte passa a aparecer como uma descrição impessoal da realidade.
O perigo se amplia quando essas respostas circulam nas redes sociais, recortadas em capturas de tela, vídeos ou mensagens, sem as perguntas e as ressalvas que lhes deram origem. Uma interpretação pode ganhar a aparência de confirmação independente por ter sido apresentada por uma plataforma de IA; sua repetição pode ser tomada como evidência. Nesse circuito, redes sociais e sistemas de inteligência artificial podem amplificar suspeitas, gerar uma percepção de insegurança e alimentar a contestação da legitimidade eleitoral. É preciso examinar o conteúdo e as condições de sua produção e circulação, incluindo o eventual uso coordenado dessas ferramentas para conferir credibilidade a alegações não comprovadas.
Os achados exploratórios do projeto IA & Eleições ajudam a formular esse problema. Na documentação consolidada em setembro, o Le Chat indicou Lula em junho e julho, passou a indicar Flávio Bolsonaro em pedidos genéricos de agosto e voltou a indicar Lula quando a pergunta enfatizou a soberania. Esses registros não permitem atribuir as diferenças a uma causa isolada, a uma atualização identificada ou a uma orientação partidária fixa. O achado é compatível com respostas sensíveis ao tema e à formulação, entre outras condições de interação. A pergunta e o contexto precisam acompanhar a resposta para que o público possa avaliar o alcance da resposta.
Nas próximas horas e após a votação, suspeitas não comprovadas não podem servir para desautorizar a escolha popular. Denúncias devem ser apuradas pelas instituições competentes e o resultado certificado deve ser respeitado. A soberania eleitoral é inegociável. Nenhuma potência tem o direito de condicionar a decisão brasileira a ameaças, sanções ou ao reconhecimento seletivo. Os Estados Unidos têm um histórico de intervenções em eleições latino-americanas. Essa tradição antidemocrática não pode ganhar terreno fértil neste momento crítico. Proteger a liberdade política exige vigilância sobre quem produz e faz circular as evidências. O Brasil não precisa de tutela estrangeira para decidir seu futuro.
___________
*Carmem Leitão é professora da Universidade Federal do Ceará e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Leonardo Avritzer é professor titular aposentado da UFMG.
O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros tanto no campo do financiamento quanto no da divulgação.
FONTE: Carta Capital
