A morte do bolsonarismo já foi anunciada algumas vezes nos últimos anos. Seu fim foi declarado após a derrota de 2022, ganhou força depois da prisão de Jair Bolsonaro e agora ressurge no debate público com a fuga do candidato derrotado. A longevidade da questão não a torna menos pertinente.
Não é o caso de menosprezar como os destinos pessoais dos Bolsonaro tendem a determinar sua capacidade de influir na política nacional. Por mais que a desculpa de uma hipotética perseguição política possa mobilizar alguns, a luta somente por fora das instituições, com a aposta aberta no golpe que restou para boa parte do clã, desmonta a atuação na fronteira entre instituições e ilegalidade, que tem caracterizado os movimentos bem-sucedidos da ultradireita na última década.
Por outro lado, a atenção ao tema no atual momento, poucos dias após uma vitória histórica de Lula no segundo turno das eleições presidenciais, indica uma das razões da longevidade do movimento: sua capacidade de pautar os debates na esfera pública. A fuga de Flávio decorre, é claro, do medo da prisão, paixão semelhante à que levou seu pai e seu irmão a saírem do Brasil em outros momentos. O esquete patético é, porém, eficaz em manter a família no centro dos enredos políticos. O bolsonarismo perdura como coalizão, pois os possíveis concorrentes não conseguem construir uma articulação alternativa, que ofereça outros caminhos e sobretudo uma agenda distante da estética política construída pela família na última década.
Um dos motivos da vitória de Lula no segundo turno das eleições foi sua habilidade de construir a agenda do pleito, o que começou com a proibição das bets, perdurou com o fim da escala 6×1 e manteve o fôlego com as atividades incessantes nas redes e ruas. Depois de um primeiro turno dominado pela estratégia de André Mendonça de enfatizar a corrupção no Supremo Tribunal Federal, fortemente abraçada pela maior parte da mídia, o petismo conseguiu controlar os temas das três últimas semanas.
Ante as demonstrações de força no presente e as incertezas do futuro, é útil uma reflexão sobre os sentidos e limites do conceito de bolsonarismo. O termo remete a um movimento social e uma coalizão política, ambos incompreensíveis sem um vínculo simbólico com Jair Bolsonaro. A relação não precisa ser chancelada pelo ex-presidente, mas necessariamente aponta para certa ideia de carisma, mesmo que rotinizado, do patriarca da família. Ideias como a de um bolsonarismo sem Bolsonaro trazem sugestões interessantes, mas correm o risco de reduzir o fenômeno mais complexo da construção de um campo da ultradireita no Brasil a um nome. Para pensarmos no futuro, é importante explorarmos algumas distinções: uma entre o bolsonarismo e a ultradireita, outra entre o bolsonarismo como movimento e como coalizão.
O bolsonarismo é a coalizão hegemônica dentro do campo da ultradireita, mas não esgota sua diversidade. Há não apenas formações alternativas, caso do Missão-MBL, mas também atores que aderem eleitoralmente à família sem assumirem um pleno alinhamento. Com o clã longe de cargos e fora do centro do debate público, é mais fácil o surgimento de caminhos distintos, mas, para tanto, é necessário que eles demonstrem potencial eleitoral autônomo e capacidade de articulação política. Até hoje profundamente submisso ao bolsonarismo, Tarcísio de Freitas já evidenciou popularidade entre as elites políticas e econômicas, mas sempre expôs claro receio de testar sua força política contra os Bolsonaro. Os temores têm alguma razão. A transferência de capital eleitoral é sempre um processo difícil e se torna ainda mais complicada no caso de lideranças carismáticas. Por outro lado, novos atores como Nikolas Ferreira, com grande força nas redes sociais, precisam construir um grupo adequado às disputas majoritárias. Há, portanto, espaço para o surgimento de outras opções, mas o alto custo e a inércia do atual cenário tornam sua construção mais difícil do que parece.
A ultradireita e mesmo a direita parecem continuar na mesma situação dos últimos anos, na qual o bolsonarismo surge como vantagem, capaz de reunir rapidamente uma grande quantidade de votos, e como limite, pela rejeição que produz. Ao mesmo tempo, nem mesmo os protagonistas do campo parecem ter clareza do papel da família Bolsonaro nos milhões de votos do primeiro turno. Diversas questões ficam no ar. A ampla e diversa articulação entre elites e bases pode prescindir do seu nome mais popular? Outros nomes seriam capazes de manter o campo unido?
Mudanças internas ao bolsonarismo podem, entretanto, colaborar para a perda da hegemonia. A atuação à margem da lei pode agitar o movimento bolsonarista, com força nas redes e capacidade de engajar vários setores da sociedade, entusiasmados por propostas golpistas. Não será tão simples, contudo, manter unida a coalizão, que congrega diversas lideranças políticas e econômicas. A indefinição da liderança e o horizonte incerto para as próximas disputas eleitorais devem incentivar confrontos internos e tornar mais sedutora a deserção. Os embates eleitorais entre Michelle e Flávio Bolsonaro, assim como as reações iniciais à carta golpista do candidato derrotado, trazem boas pistas do que pode ser o futuro.
A mudança de guarda não é, porém, de modo algum garantida. A insistência na defesa da anistia de Jair Bolsonaro, que reaparece por meio de vozes diversas na imprensa, indica como o bolsonarismo continua a ser um caminho tentador. Caso muitos sucumbam às esperadas dificuldades de se construir uma nova coalizão, a proposta pode ganhar força, sobretudo com um STF enfraquecido pelo Caso Master. É possível esperar outros tipos de acordões por parte de uma fatia significativa da elite política que aderiu ao bolsonarismo.
Em meio às dúvidas sobre a continuidade da sua hegemonia no campo da direita e da ultradireita, é bem provável, contudo, que o bolsonarismo perdure enquanto movimento relevante da política nacional, talvez incapaz de liderar uma coalizão semelhante à das últimas três eleições, mas influente nos rumos da democracia brasileira. O que gera, sem dúvida, muita preocupação para os próximos anos.
A morte do bolsonarismo já foi anunciada algumas vezes nos últimos anos. Seu fim foi declarado após a derrota de 2022, ganhou força depois da prisão de Jair Bolsonaro e agora ressurge no debate público com a fuga do candidato derrotado. A longevidade da questão não a torna menos pertinente.
Não é o caso de menosprezar como os destinos pessoais dos Bolsonaro tendem a determinar sua capacidade de influir na política nacional. Por mais que a desculpa de uma hipotética perseguição política possa mobilizar alguns, a luta somente por fora das instituições, com a aposta aberta no golpe que restou para boa parte do clã, desmonta a atuação na fronteira entre instituições e ilegalidade, que tem caracterizado os movimentos bem-sucedidos da ultradireita na última década.
Por outro lado, a atenção ao tema no atual momento, poucos dias após uma vitória histórica de Lula no segundo turno das eleições presidenciais, indica uma das razões da longevidade do movimento: sua capacidade de pautar os debates na esfera pública. A fuga de Flávio decorre, é claro, do medo da prisão, paixão semelhante à que levou seu pai e seu irmão a saírem do Brasil em outros momentos. O esquete patético é, porém, eficaz em manter a família no centro dos enredos políticos. O bolsonarismo perdura como coalizão, pois os possíveis concorrentes não conseguem construir uma articulação alternativa, que ofereça outros caminhos e sobretudo uma agenda distante da estética política construída pela família na última década.
Um dos motivos da vitória de Lula no segundo turno das eleições foi sua habilidade de construir a agenda do pleito, o que começou com a proibição das bets, perdurou com o fim da escala 6×1 e manteve o fôlego com as atividades incessantes nas redes e ruas. Depois de um primeiro turno dominado pela estratégia de André Mendonça de enfatizar a corrupção no Supremo Tribunal Federal, fortemente abraçada pela maior parte da mídia, o petismo conseguiu controlar os temas das três últimas semanas.
Ante as demonstrações de força no presente e as incertezas do futuro, é útil uma reflexão sobre os sentidos e limites do conceito de bolsonarismo. O termo remete a um movimento social e uma coalizão política, ambos incompreensíveis sem um vínculo simbólico com Jair Bolsonaro. A relação não precisa ser chancelada pelo ex-presidente, mas necessariamente aponta para certa ideia de carisma, mesmo que rotinizado, do patriarca da família. Ideias como a de um bolsonarismo sem Bolsonaro trazem sugestões interessantes, mas correm o risco de reduzir o fenômeno mais complexo da construção de um campo da ultradireita no Brasil a um nome. Para pensarmos no futuro, é importante explorarmos algumas distinções: uma entre o bolsonarismo e a ultradireita, outra entre o bolsonarismo como movimento e como coalizão.
O bolsonarismo é a coalizão hegemônica dentro do campo da ultradireita, mas não esgota sua diversidade. Há não apenas formações alternativas, caso do Missão-MBL, mas também atores que aderem eleitoralmente à família sem assumirem um pleno alinhamento. Com o clã longe de cargos e fora do centro do debate público, é mais fácil o surgimento de caminhos distintos, mas, para tanto, é necessário que eles demonstrem potencial eleitoral autônomo e capacidade de articulação política. Até hoje profundamente submisso ao bolsonarismo, Tarcísio de Freitas já evidenciou popularidade entre as elites políticas e econômicas, mas sempre expôs claro receio de testar sua força política contra os Bolsonaro. Os temores têm alguma razão. A transferência de capital eleitoral é sempre um processo difícil e se torna ainda mais complicada no caso de lideranças carismáticas. Por outro lado, novos atores como Nikolas Ferreira, com grande força nas redes sociais, precisam construir um grupo adequado às disputas majoritárias. Há, portanto, espaço para o surgimento de outras opções, mas o alto custo e a inércia do atual cenário tornam sua construção mais difícil do que parece.
A ultradireita e mesmo a direita parecem continuar na mesma situação dos últimos anos, na qual o bolsonarismo surge como vantagem, capaz de reunir rapidamente uma grande quantidade de votos, e como limite, pela rejeição que produz. Ao mesmo tempo, nem mesmo os protagonistas do campo parecem ter clareza do papel da família Bolsonaro nos milhões de votos do primeiro turno. Diversas questões ficam no ar. A ampla e diversa articulação entre elites e bases pode prescindir do seu nome mais popular? Outros nomes seriam capazes de manter o campo unido?
Mudanças internas ao bolsonarismo podem, entretanto, colaborar para a perda da hegemonia. A atuação à margem da lei pode agitar o movimento bolsonarista, com força nas redes e capacidade de engajar vários setores da sociedade, entusiasmados por propostas golpistas. Não será tão simples, contudo, manter unida a coalizão, que congrega diversas lideranças políticas e econômicas. A indefinição da liderança e o horizonte incerto para as próximas disputas eleitorais devem incentivar confrontos internos e tornar mais sedutora a deserção. Os embates eleitorais entre Michelle e Flávio Bolsonaro, assim como as reações iniciais à carta golpista do candidato derrotado, trazem boas pistas do que pode ser o futuro.
A mudança de guarda não é, porém, de modo algum garantida. A insistência na defesa da anistia de Jair Bolsonaro, que reaparece por meio de vozes diversas na imprensa, indica como o bolsonarismo continua a ser um caminho tentador. Caso muitos sucumbam às esperadas dificuldades de se construir uma nova coalizão, a proposta pode ganhar força, sobretudo com um STF enfraquecido pelo Caso Master. É possível esperar outros tipos de acordões por parte de uma fatia significativa da elite política que aderiu ao bolsonarismo.
Em meio às dúvidas sobre a continuidade da sua hegemonia no campo da direita e da ultradireita, é bem provável, contudo, que o bolsonarismo perdure enquanto movimento relevante da política nacional, talvez incapaz de liderar uma coalizão semelhante à das últimas três eleições, mas influente nos rumos da democracia brasileira. O que gera, sem dúvida, muita preocupação para os próximos anos.
FONTE: Carta Capital
