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Nação do Brasil > Notícias > Bolsonaro > Vinho novo em odres velhos: as armadilhas do discurso anticorrupção
Bolsonaro

Vinho novo em odres velhos: as armadilhas do discurso anticorrupção

Nação do Brasil
Last updated: setembro 22, 2026 4:50 pm
Nação do Brasil - Nação do Brasil
20 Min Read
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Análises sobre a política brasileira muitas vezes partem de uma visão extremamente negativa do País. Seríamos patrimonialistas, populistas e mesmo autoritários, talvez intrinsecamente inaptos para a democracia, ou até mesmo para as instituições modernas. Construídos a partir de um repertório diverso, tais discursos circulam entre o debate dos intelectuais e certo senso comum reproduzido na mídia, ou mesmo nas conversas cotidianas. A normalização dessa visão pode produzir efeitos diversos, mas em regra tende a favorecer os setores mais à direita e recentemente tem criado boas condições para a ultradireita. 

A cobertura eleitoral naturaliza a dimensão trágica de quase todos os aspectos da sociedade brasileira. É claro que o País tem problemas concretos, das distintas formas de desigualdade aos limites do nosso desenvolvimento, mas a questão passa justamente pelo modo de enquadrá-los. A ideia de terra arrasada sempre foi fértil para lideranças de perfil salvacionista, que prometem, a partir de justificativas diversas, a radical ruptura com tudo o que está aí. Quando olhamos o enquadramento do debate público, há uma clara tolerância maior a discursos de salvação marcados por valores à direita. 

A história brasileira carrega um longo catálogo de soluções salvacionistas, que pretendem resolver por cima, com o devido protagonismo de elites esclarecidas, os problemas nacionais. Mudam os personagens, mas o enredo é semelhante. Há um diagnóstico de crise, de maior ou menor profundidade, e a identificação de governantes com uma corrupção endêmica. Como contraponto aos que hoje governam, surgem personagens que se pretendem moralmente distintos e, por isso, mais aptos para resolver os males do presente. A solução usualmente não passa pelas urnas ou pela efetiva participação das massas, já que há uma crença na degradação dos hábitos e dos valores da maior parte da população. Contra o povo enredado em falsas soluções, o papel pedagógico de poucos esclarecidos. O caminho para um País melhor exigiria um momento de exceção, no qual as instituições ou a democracia fossem suspensas, para que se pudesse recomeçar com plena legitimidade uma nova ordem. 

Os salvadores são de estirpes diversas. É muito comum que sejam militares, como em 1964, mas há outros candidatos. Carlos Lacerda, grande representante deste tipo de argumento ao longo da República de 1946, era jornalista. Juristas e economistas já reivindicaram papel semelhante. Ao longo das últimas duas décadas, uma inovação sensível foi a centralidade do Judiciário na liderança deste tipo de projeto. Antes influentes a partir das coxias dos palácios ou das tribunas parlamentares, os juristas passaram a assumir o lugar de reformadores sociais por meio do Judiciário ou do Ministério Público. A receita teve bons precursores ao longo da década de 1990, com entusiasmo da própria esquerda, mas tornou-se mais consistente com a atuação de Joaquim Barbosa no processo do “mensalão”. 

CartaCapital
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Sérgio Moro levou a estratégia ao extremo. De uma vara de primeira instância em Curitiba, ele conseguiu ser decisivo em uma eleição presidencial. O sucesso passou pela concertação dos esforços de investigação, acusação e julgamento, mas envolveu sobretudo uma hábil capacidade de pautar o debate público com base em vazamentos amplamente explorados pela mídia. Explicitamente inspirada na estratégia da Operação Mãos Limpas, na Itália, a Lava Jato encontrou um cenário favorável, com uma população sensível ao tema e uma mídia ávida pelo protagonismo produzido por este tipo de pauta. Explicação simples para questões complexas, o tema foi capaz de mobilizar e justificar posições políticas diversas.

André Mendonça segue os passos de Moro. Por um lado, há a articulação entre investigação, acusação e julgamento, em movimento bem semelhante não apenas ao atual candidato a governador do Paraná, mas próximo da conduta do seu desafeto Alexandre de Moraes no Inquérito das Fake News. As semelhanças com seu colega de STF param por aí. Moraes nunca teve nos vazamentos seletivos o centro da sua atuação, o que muda seu lugar no imaginário público, ou mesmo suas representações mais usuais na imprensa. 

Há um elemento pouco destacado nos debates, mas central para compreender as ações de Moraes: ele não tem qualquer afinidade com a esquerda, já que sua trajetória é de um quadro da direita tradicional do pós-1988. Indicado por Michel Temer para o STF, o jurista antes foi ministro da Justiça do mesmo presidente e secretário de Segurança Pública do PSDB no estado de São Paulo. Para além da avaliação da sua atuação, é inegável que os embates com Bolsonaro passavam pela própria proteção da Corte, atacada constantemente pelo bolsonarismo. Já na campanha, um filho do futuro presidente dizia que bastava um cabo e um soldado para fechá-la.      

Mendonça, por sua vez, é um quadro do bolsonarismo. Advogado-geral da União sucessor de Moro no Ministério da Justiça no governo do ex-presidente — e indicado como ministro “terrivelmente evangélico” —, ele está profundamente vinculado à ascensão da ultradireita. Se os métodos empregados lembram os de Moro, sua parcialidade é ainda mais evidente. O juiz de Curitiba demonstrou aos poucos que tinha lado, o que ficou definitivamente provado quando ele assumiu como superministro do presidente que ajudou a eleger. Mendonça já parte de um vínculo evidente com a família Bolsonaro.

Como é usual no mundo político, o problema da ação de Mendonça não está apenas no seu conteúdo, mas no tempo escolhido para sua realização. As opções por quando, como e contra quem agir foram por si só uma forma de intervir na eleição. A aposta tem seus riscos, já bem demonstrados na última sessão do STF, mas ganha contornos de segurança pelo claro constrangimento público de lidar com o tema da corrupção. Para muitos jornalistas e analistas há a clara sensação de que criticar Mendonça é defender Moraes, ou, o que seria pior, concordar com a degradação da ordem política por meio do dinheiro.

Trata-se de ideia equivocada. Nada é mais funcional para os corruptores do que a redução da política ao campo da moralidade individual, que atribui os problemas nacionais à qualidade das lideranças, ou conclui que todos são igualmente corruptos. Figuras como Daniel Vorcaro crescem em cenários de terra arrasada. O já mencionado caso italiano é bem didático: a profunda crise política após a Operação Mãos Limpas produziu Silvio Berlusconi. Podemos, aliás, ficar no nosso próprio quintal, já que não é possível compreender o bolsonarismo sem olhar para as múltiplas consequências da Lava Jato. É necessário destacar ainda que a parcialidade de Mendonça não é um desvio, mas inerente à postura salvacionista de refundar moralmente a política, que, dessa vez, conta com um verniz retórico evangélico. 

As incoerências são, por sua vez, tanto um problema quanto um eventual ganho para seus objetivos. Isso porque Mendonça aposta em um discurso que produz consequências negativas tanto se for confirmado quanto se for contestado. A identificação da corrupção com a esquerda é uma conclusão trágica quando acolhida, mas, uma vez contestada, produz uma segunda percepção também negativa: a de que todos os atores são igualmente corruptos. Isso não apenas dilui os casos de corrupção da direita em um todo indistinto, como valoriza um tipo de liderança típica do campo: o salvacionista defensor da ordem. 

A saída passa por dois esforços. Por um lado, é fundamental reduzir Mendonça, assim como os personagens a ele semelhantes, a um lugar lateral do debate público. Tomá-lo como grande adversário é, em certo sentido, realizar desígnios da direita. É necessária uma crítica prévia, que o denuncie como parte de algo maior. Não é simples, porém, seguir este caminho sem aumentar a visibilidade do ministro. 

Nada disso é possível sem que se resista aos encantos da espetacularização, o que exige um difícil cálculo dos indivíduos no ambiente das redes, mas passa sobretudo por escolhas da mídia, sempre tentada a valorizar escândalos de corrupção. Em tempos de inflação da primeira pessoa na internet e de uma imprensa crescentemente interessada em likes, não há grande perspectiva de que venhamos a sair desse atoleiro.

Análises sobre a política brasileira muitas vezes partem de uma visão extremamente negativa do País. Seríamos patrimonialistas, populistas e mesmo autoritários, talvez intrinsecamente inaptos para a democracia, ou até mesmo para as instituições modernas. Construídos a partir de um repertório diverso, tais discursos circulam entre o debate dos intelectuais e certo senso comum reproduzido na mídia, ou mesmo nas conversas cotidianas. A normalização dessa visão pode produzir efeitos diversos, mas em regra tende a favorecer os setores mais à direita e recentemente tem criado boas condições para a ultradireita. 

A cobertura eleitoral naturaliza a dimensão trágica de quase todos os aspectos da sociedade brasileira. É claro que o País tem problemas concretos, das distintas formas de desigualdade aos limites do nosso desenvolvimento, mas a questão passa justamente pelo modo de enquadrá-los. A ideia de terra arrasada sempre foi fértil para lideranças de perfil salvacionista, que prometem, a partir de justificativas diversas, a radical ruptura com tudo o que está aí. Quando olhamos o enquadramento do debate público, há uma clara tolerância maior a discursos de salvação marcados por valores à direita. 

A história brasileira carrega um longo catálogo de soluções salvacionistas, que pretendem resolver por cima, com o devido protagonismo de elites esclarecidas, os problemas nacionais. Mudam os personagens, mas o enredo é semelhante. Há um diagnóstico de crise, de maior ou menor profundidade, e a identificação de governantes com uma corrupção endêmica. Como contraponto aos que hoje governam, surgem personagens que se pretendem moralmente distintos e, por isso, mais aptos para resolver os males do presente. A solução usualmente não passa pelas urnas ou pela efetiva participação das massas, já que há uma crença na degradação dos hábitos e dos valores da maior parte da população. Contra o povo enredado em falsas soluções, o papel pedagógico de poucos esclarecidos. O caminho para um País melhor exigiria um momento de exceção, no qual as instituições ou a democracia fossem suspensas, para que se pudesse recomeçar com plena legitimidade uma nova ordem. 

Os salvadores são de estirpes diversas. É muito comum que sejam militares, como em 1964, mas há outros candidatos. Carlos Lacerda, grande representante deste tipo de argumento ao longo da República de 1946, era jornalista. Juristas e economistas já reivindicaram papel semelhante. Ao longo das últimas duas décadas, uma inovação sensível foi a centralidade do Judiciário na liderança deste tipo de projeto. Antes influentes a partir das coxias dos palácios ou das tribunas parlamentares, os juristas passaram a assumir o lugar de reformadores sociais por meio do Judiciário ou do Ministério Público. A receita teve bons precursores ao longo da década de 1990, com entusiasmo da própria esquerda, mas tornou-se mais consistente com a atuação de Joaquim Barbosa no processo do “mensalão”. 

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Sérgio Moro levou a estratégia ao extremo. De uma vara de primeira instância em Curitiba, ele conseguiu ser decisivo em uma eleição presidencial. O sucesso passou pela concertação dos esforços de investigação, acusação e julgamento, mas envolveu sobretudo uma hábil capacidade de pautar o debate público com base em vazamentos amplamente explorados pela mídia. Explicitamente inspirada na estratégia da Operação Mãos Limpas, na Itália, a Lava Jato encontrou um cenário favorável, com uma população sensível ao tema e uma mídia ávida pelo protagonismo produzido por este tipo de pauta. Explicação simples para questões complexas, o tema foi capaz de mobilizar e justificar posições políticas diversas.

André Mendonça segue os passos de Moro. Por um lado, há a articulação entre investigação, acusação e julgamento, em movimento bem semelhante não apenas ao atual candidato a governador do Paraná, mas próximo da conduta do seu desafeto Alexandre de Moraes no Inquérito das Fake News. As semelhanças com seu colega de STF param por aí. Moraes nunca teve nos vazamentos seletivos o centro da sua atuação, o que muda seu lugar no imaginário público, ou mesmo suas representações mais usuais na imprensa. 

Há um elemento pouco destacado nos debates, mas central para compreender as ações de Moraes: ele não tem qualquer afinidade com a esquerda, já que sua trajetória é de um quadro da direita tradicional do pós-1988. Indicado por Michel Temer para o STF, o jurista antes foi ministro da Justiça do mesmo presidente e secretário de Segurança Pública do PSDB no estado de São Paulo. Para além da avaliação da sua atuação, é inegável que os embates com Bolsonaro passavam pela própria proteção da Corte, atacada constantemente pelo bolsonarismo. Já na campanha, um filho do futuro presidente dizia que bastava um cabo e um soldado para fechá-la.      

Mendonça, por sua vez, é um quadro do bolsonarismo. Advogado-geral da União sucessor de Moro no Ministério da Justiça no governo do ex-presidente — e indicado como ministro “terrivelmente evangélico” —, ele está profundamente vinculado à ascensão da ultradireita. Se os métodos empregados lembram os de Moro, sua parcialidade é ainda mais evidente. O juiz de Curitiba demonstrou aos poucos que tinha lado, o que ficou definitivamente provado quando ele assumiu como superministro do presidente que ajudou a eleger. Mendonça já parte de um vínculo evidente com a família Bolsonaro.

Como é usual no mundo político, o problema da ação de Mendonça não está apenas no seu conteúdo, mas no tempo escolhido para sua realização. As opções por quando, como e contra quem agir foram por si só uma forma de intervir na eleição. A aposta tem seus riscos, já bem demonstrados na última sessão do STF, mas ganha contornos de segurança pelo claro constrangimento público de lidar com o tema da corrupção. Para muitos jornalistas e analistas há a clara sensação de que criticar Mendonça é defender Moraes, ou, o que seria pior, concordar com a degradação da ordem política por meio do dinheiro.

Trata-se de ideia equivocada. Nada é mais funcional para os corruptores do que a redução da política ao campo da moralidade individual, que atribui os problemas nacionais à qualidade das lideranças, ou conclui que todos são igualmente corruptos. Figuras como Daniel Vorcaro crescem em cenários de terra arrasada. O já mencionado caso italiano é bem didático: a profunda crise política após a Operação Mãos Limpas produziu Silvio Berlusconi. Podemos, aliás, ficar no nosso próprio quintal, já que não é possível compreender o bolsonarismo sem olhar para as múltiplas consequências da Lava Jato. É necessário destacar ainda que a parcialidade de Mendonça não é um desvio, mas inerente à postura salvacionista de refundar moralmente a política, que, dessa vez, conta com um verniz retórico evangélico. 

As incoerências são, por sua vez, tanto um problema quanto um eventual ganho para seus objetivos. Isso porque Mendonça aposta em um discurso que produz consequências negativas tanto se for confirmado quanto se for contestado. A identificação da corrupção com a esquerda é uma conclusão trágica quando acolhida, mas, uma vez contestada, produz uma segunda percepção também negativa: a de que todos os atores são igualmente corruptos. Isso não apenas dilui os casos de corrupção da direita em um todo indistinto, como valoriza um tipo de liderança típica do campo: o salvacionista defensor da ordem. 

A saída passa por dois esforços. Por um lado, é fundamental reduzir Mendonça, assim como os personagens a ele semelhantes, a um lugar lateral do debate público. Tomá-lo como grande adversário é, em certo sentido, realizar desígnios da direita. É necessária uma crítica prévia, que o denuncie como parte de algo maior. Não é simples, porém, seguir este caminho sem aumentar a visibilidade do ministro. 

Nada disso é possível sem que se resista aos encantos da espetacularização, o que exige um difícil cálculo dos indivíduos no ambiente das redes, mas passa sobretudo por escolhas da mídia, sempre tentada a valorizar escândalos de corrupção. Em tempos de inflação da primeira pessoa na internet e de uma imprensa crescentemente interessada em likes, não há grande perspectiva de que venhamos a sair desse atoleiro.

FONTE: Carta Capital

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