“…insistiu em Jung a premissa de que a doença (ou o páthos, as paixões e os eventos de uma época) é de ordem coletiva e só pode ser tratada no coletivo” – Gustavo Pessoa.
Vemos, nestes dias, que uma parte do Brasil está adoecida.
Infelizmente, são dezenas de milhões de pessoas que pretendem votar em Flávio Bolsonaro, cuja ficha corrida não poderia ser mais extensa, com fatos delituosos que vão até a traição à soberania da Pátria — e se descobriu que divide imóveis comerciais com o principal suspeito da fraude no INSS, o “Careca”, em Brasília.
Ao lado disso, enviou para um fundo nos EUA o dinheiro da corrupção de Daniel Vorcaro, que, por sua vez, obteve-o, fraudando o fundo de pensão dos servidores do estado do Rio de Janeiro.
A suspeita é que essas dezenas de milhões de reais tenham abastecido lobbies nos Estados Unidos, que defendem junto ao desgoverno de Trump os interesses da família criminosa, disposta a vender o País para salvar a própria pele e enriquecer ainda mais a custo do erário público — como sempre fizeram, uma vez que nenhum membro jamais exerceu qualquer função pelo interesse da coletividade.
No artigo de que a citação acima foi extraída, publicado no último número da revista Cult, o autor complementa: “Tal premissa guarda nexo com as propostas subsequentes de Giles Deleuze e Félix Guattari, na França, sobre o sofrimento como fenômeno social irredutível, ou de Franz Fanon, na Martinica, ao sugerir que a mobilização política é condição para a cura”.
Por essa métrica, verificamos que a direita brasileira está doente e a esquerda tem muita dificuldade de entender as periferias, uma vez que sua dirigência ascendeu de classe social.
Novos líderes surgem, mas a sucessão geracional toma tempo e exige desprendimento.
A mobilização acaba sendo feita por quem está nas periferias: as igrejas evangélicas, com as quais os progressistas têm grande dificuldade em dialogar.
Pior, pelas dimensões, os brasileiros têm dificuldade em aprender com outros vizinhos latino-americanos, como o México, por exemplo, cuja presidenta fala diariamente com a população, vive em apartamento de classe média e viaja desacompanhada, em classe econômica.
São simbolismos que nos escapam, mas não são indiferentes às classes D e E.
Ao lado disso, a política externa mexicana baseia-se na não-ingerência, como ocorreu no caso das eleições venezuelanas, em que deixou claro que se tratava de assunto interno venezuelano, ao contrário do Brasil.
Transitando, de forma oportuna, entre o político e o religioso, Pessoa também recorda, no artigo supracitado: “Há duas noções herdadas da filosofia da Antiguidade que nos interessam na investigação dos fenômenos religiosos ou místicos. Em primeiro lugar, retomar a insistência de Cícero na experiência religiosa como relegere, excedendo seu nexo mais comum com religare, que remeteria à ideia de religação ou reconexão com algo maior. Relegere, por sua vez, poderia se traduzir mais facilmente como releitura, embora também haja margem para pensarmos em ‘observar’ ou ‘recolher cuidadosamente”.
De fato, ao observarmos as oligarquias nacionais e internacionais, pode-se perceber que sua principal atividade econômica é o roubo, não o trabalho.
Por isso, apoiam os que o legitimam, como um certo governador de um estado rico, que conferiu títulos de terra legitimos a fazendeiros que as haviam invadido…
O mesmo vale para Donald Trump, cuja fortuna pessoal não cessa de crescer, graças ao cargo.
No mesmo sentido, financia política externa desastrada e belicista, roubando o petróleo da Venezuela, o que fará também com o Brasil, se Bolsonaro júnior vencer aqui.
A propósito do colonialismo, em seu artigo sobre o pai da psicologia analítica, Carl Gustav Jung, Gustavo Pessoa complementa: “Jung passou a vida insatisfeito com o modo de pensar europeu. Viajou à África mais de uma vez, visitou povos ameríndios e foi à Índia conversar com anciãos que puderam lhe contar sobre suas tradições. Seu interesse nada tinha a ver com a postura de um colonizador. Em vez disso, diz Nise da Silveira, Jung escutou os povos e pisou suas terras para concluir que a colonização era a prova de que a ancestralidade das nações europeias precisaria assumir sua face de ‘ave de rapina, piratas e salteadores de estrada’, segundo ele mesmo nomeou seu povo, se quisessem de fato se curar das neuroses culturais que os acometiam.”
Não é esse o desserviço que prestam aos colonialistas os políticos de extrema-direita da América Latina e do Sul do mundo em geral? A riqueza pessoal e o prestígio político deles não são trocados pelas riquezas do país que permitem serem locupletadas impunemente? Não é a isso que assistimos nesta eleição, em que o candidato da extrema-direita garantiu livre acesso às riquezas nacionais para que o império nos roube e escravize mais uma vez?
Até quando seremos despossuídos? A morte de Tiradentes foi em vão? A de Marielle nada nos ensinou?
As urnas nos aguardam em 4 de outubro.
O saudosíssimo Papa Francisco, em sua autobiografia, Esperança (editora Fontanar), vai direto ao ponto, ao afirmar: “E, depois de olhar e ouvir, não está o falar. Está o fazer”.
Vale a pena concluir com bell hooks, em Tudo sobre o amor (editora Elefante): “Podemos celebrar e honrar o comunalismo e a interdependência…Viver com simplicidade faz com que amar seja simples. A escolha por viver com simplicidade necessariamente intensifica a nossa capacidade de amar. É como aprendemos a praticar a compaixão, afirmando todos os dias nossa conexão com uma comunidade mundial”.
“…insistiu em Jung a premissa de que a doença (ou o páthos, as paixões e os eventos de uma época) é de ordem coletiva e só pode ser tratada no coletivo” – Gustavo Pessoa.
Vemos, nestes dias, que uma parte do Brasil está adoecida.
Infelizmente, são dezenas de milhões de pessoas que pretendem votar em Flávio Bolsonaro, cuja ficha corrida não poderia ser mais extensa, com fatos delituosos que vão até a traição à soberania da Pátria — e se descobriu que divide imóveis comerciais com o principal suspeito da fraude no INSS, o “Careca”, em Brasília.
Ao lado disso, enviou para um fundo nos EUA o dinheiro da corrupção de Daniel Vorcaro, que, por sua vez, obteve-o, fraudando o fundo de pensão dos servidores do estado do Rio de Janeiro.
A suspeita é que essas dezenas de milhões de reais tenham abastecido lobbies nos Estados Unidos, que defendem junto ao desgoverno de Trump os interesses da família criminosa, disposta a vender o País para salvar a própria pele e enriquecer ainda mais a custo do erário público — como sempre fizeram, uma vez que nenhum membro jamais exerceu qualquer função pelo interesse da coletividade.
No artigo de que a citação acima foi extraída, publicado no último número da revista Cult, o autor complementa: “Tal premissa guarda nexo com as propostas subsequentes de Giles Deleuze e Félix Guattari, na França, sobre o sofrimento como fenômeno social irredutível, ou de Franz Fanon, na Martinica, ao sugerir que a mobilização política é condição para a cura”.
Por essa métrica, verificamos que a direita brasileira está doente e a esquerda tem muita dificuldade de entender as periferias, uma vez que sua dirigência ascendeu de classe social.
Novos líderes surgem, mas a sucessão geracional toma tempo e exige desprendimento.
A mobilização acaba sendo feita por quem está nas periferias: as igrejas evangélicas, com as quais os progressistas têm grande dificuldade em dialogar.
Pior, pelas dimensões, os brasileiros têm dificuldade em aprender com outros vizinhos latino-americanos, como o México, por exemplo, cuja presidenta fala diariamente com a população, vive em apartamento de classe média e viaja desacompanhada, em classe econômica.
São simbolismos que nos escapam, mas não são indiferentes às classes D e E.
Ao lado disso, a política externa mexicana baseia-se na não-ingerência, como ocorreu no caso das eleições venezuelanas, em que deixou claro que se tratava de assunto interno venezuelano, ao contrário do Brasil.
Transitando, de forma oportuna, entre o político e o religioso, Pessoa também recorda, no artigo supracitado: “Há duas noções herdadas da filosofia da Antiguidade que nos interessam na investigação dos fenômenos religiosos ou místicos. Em primeiro lugar, retomar a insistência de Cícero na experiência religiosa como relegere, excedendo seu nexo mais comum com religare, que remeteria à ideia de religação ou reconexão com algo maior. Relegere, por sua vez, poderia se traduzir mais facilmente como releitura, embora também haja margem para pensarmos em ‘observar’ ou ‘recolher cuidadosamente”.
De fato, ao observarmos as oligarquias nacionais e internacionais, pode-se perceber que sua principal atividade econômica é o roubo, não o trabalho.
Por isso, apoiam os que o legitimam, como um certo governador de um estado rico, que conferiu títulos de terra legitimos a fazendeiros que as haviam invadido…
O mesmo vale para Donald Trump, cuja fortuna pessoal não cessa de crescer, graças ao cargo.
No mesmo sentido, financia política externa desastrada e belicista, roubando o petróleo da Venezuela, o que fará também com o Brasil, se Bolsonaro júnior vencer aqui.
A propósito do colonialismo, em seu artigo sobre o pai da psicologia analítica, Carl Gustav Jung, Gustavo Pessoa complementa: “Jung passou a vida insatisfeito com o modo de pensar europeu. Viajou à África mais de uma vez, visitou povos ameríndios e foi à Índia conversar com anciãos que puderam lhe contar sobre suas tradições. Seu interesse nada tinha a ver com a postura de um colonizador. Em vez disso, diz Nise da Silveira, Jung escutou os povos e pisou suas terras para concluir que a colonização era a prova de que a ancestralidade das nações europeias precisaria assumir sua face de ‘ave de rapina, piratas e salteadores de estrada’, segundo ele mesmo nomeou seu povo, se quisessem de fato se curar das neuroses culturais que os acometiam.”
Não é esse o desserviço que prestam aos colonialistas os políticos de extrema-direita da América Latina e do Sul do mundo em geral? A riqueza pessoal e o prestígio político deles não são trocados pelas riquezas do país que permitem serem locupletadas impunemente? Não é a isso que assistimos nesta eleição, em que o candidato da extrema-direita garantiu livre acesso às riquezas nacionais para que o império nos roube e escravize mais uma vez?
Até quando seremos despossuídos? A morte de Tiradentes foi em vão? A de Marielle nada nos ensinou?
As urnas nos aguardam em 4 de outubro.
O saudosíssimo Papa Francisco, em sua autobiografia, Esperança (editora Fontanar), vai direto ao ponto, ao afirmar: “E, depois de olhar e ouvir, não está o falar. Está o fazer”.
Vale a pena concluir com bell hooks, em Tudo sobre o amor (editora Elefante): “Podemos celebrar e honrar o comunalismo e a interdependência…Viver com simplicidade faz com que amar seja simples. A escolha por viver com simplicidade necessariamente intensifica a nossa capacidade de amar. É como aprendemos a praticar a compaixão, afirmando todos os dias nossa conexão com uma comunidade mundial”.
FONTE: Carta Capital
