Resolver a eleição para presidente da República já no primeiro turno é plausível, mas o desfecho do pleito neste domingo 4 dependerá essencialmente de eleitores dos “três Bs”: baixo interesse, baixa informação e baixo envolvimento. A avaliação é do sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi, em entrevista a CartaCapital.
“Esses eleitores é que definiram o tamanho que Bolsonaro atingiu no primeiro e no segundo turnos da eleição passada”, declarou Coimbra. “Nesta eleição, tudo indica que de novo será essa faixa do eleitorado que definirá se teremos ou não segundo turno — e quem será o futuro presidente da República.”
As pesquisas de intenção de voto mantêm no horizonte a chance de resolução no primeiro turno, que depende de um candidato obter mais de 50% dos votos válidos (excluídos votos nulos e em branco). Segundo um levantamento Nexus/BTG divulgado na segunda-feira 28, Lula (PT) tem 44% das intenções de voto válido, contra 39% de Flávio Bolsonaro (PL).
Confira os principais destaques da entrevista:
CC: É plausível que a eleição termine no primeiro turno?
MC: A possibilidade existe e as razões para isso não são apenas desta eleição, é algo que vem acontecendo há algum tempo, uma tendência de que as eleições acabem se travando entre dois candidatos. A própria instituição do segundo turno criou essa possibilidade de as pessoas pensarem em algo que se resolve logo. A última eleição em que houve uma disputa acirrada para definir quem participaria do segundo turno foi a de 2014, não é tão pouco tempo assim.
Nas últimas eleições, todas foram para o segundo turno sem que houvesse uma disputa para saber quais seriam os candidatos que iriam se defrontar. Temos nesta eleição uma coisa que não é tão comum: nenhum outro candidato mostrou potencial de crescimento. Claro que pesquisa é uma ferramenta limitada, mas o coro de todas as pesquisas mostra que os candidatos do terceiro posto em diante não aconteceram. Temos ex-governador que está nominalmente disputando a eleição e que tem zero no voto espontâneo, o que, além de ser um pouco feio para um governador, sugere que realmente as pessoas não estão pensando em outros nomes.
Aquele escritor de quem eu nunca tinha ouvido falar chegou a ter dois dígitos em pesquisa e hoje está na casa de cinco para baixo. Então, de acordo com a vantagem que um dos dois principais candidatos conseguir, a solução no primeiro turno é perfeitamente possível.
CC: Quais os fatores decisivos daqui até domingo para que a eleição termine no primeiro turno?
MC: Havia em 2022 um aparente consenso das pesquisas de que Lula chegaria muito forte e com chance de decidir no primeiro turno, e que Bolsonaro estava lá atrás. O que aconteceu na hora em que a urna foi aberta? Não foi nada disso.
Pesquisa feita a esta altura tem grande chance de não ter a menor capacidade de nos sinalizar o que efetivamente é relevante. Todo mundo sabe que a eleição será entre Lula e o filho do Bolsonaro, mas a performance de cada um por estado, por região, isso tudo é conversa fiada. Fica uma quantidade anormal de pesquisas. É pesquisa demais, com função cada vez menor.
E o que aconteceu em 2022? Quando chegamos a esta altura — e tudo indica que teremos de novo —, um determinado tipo de eleitor resolveu que estava na hora de tomar uma decisão. Que eleitor é esse? É o de baixo interesse, baixa informação e baixo envolvimento com política.
CC: Quem são essas pessoas?
MC: Pessoas que não acompanham, não conhecem, não se interessam, mas que consideram que é necessário, é justo, é correto que votem. Temos 40% da sociedade brasileira formada por pessoas desses três “Bs”. São pessoas que não acertam uma única pergunta típica de pesquisa de opinião, como: quem é o governador de São Paulo? Quanto tempo dura o mandato de um senador?
Desses eleitores, metade diz que não vai votar e não vota. Quando chega o dia, muda de assunto e vai cuidar de outra coisa, mas não vota.
Esses eleitores é que definiram o tamanho que Bolsonaro atingiu no primeiro e no segundo turnos de 2022. Nesta eleição, tudo indica que de novo será essa faixa do eleitorado que definirá se teremos ou não segundo turno — e quem será o futuro presidente da República.
Foi isso que levou Bolsonaro para frente na eleição passada, e não essa conversa de “antipetismo”, “voto de direita”, “esquerda que trava na reta final da eleição”. Tudo é conversa fiada, porque essa parte do eleitorado não tem relação nenhuma com ideologia e partido.
Existem no mundo inteiro eleitores que não se interessam por política, mas que votam. Nos Estados Unidos, você não é obrigado a votar, então esse tipo de gente já fica em casa. Mas aqui é obrigado a ir. Claro que as sanções são baixas, e é por isso que uma parte grande dessa faixa do eleitorado acaba não indo votar — e tudo indica que neste ano até pode ser mais.
CC: A ausência de candidatos de centro-esquerda dificultaria o segundo turno para Lula?
MC: Certamente a dificuldade para ele seria maior do que para o filho do Bolsonaro, que já está no mapa de eleitores conservadores, direitistas, com as características da maior parte desses outros que estão disputando.
Mas, de novo, não esquecer de que para esse eleitor de sensibilidade político-ideológica muito baixa não tem nenhum problema ter votado no Caiado por ser o governador de seu estado. Então, não votou porque o Caiado é conservador, votou por um tipo bem diferente de razão. Tem muita gente que votará por algum motivo nos candidatos do terceiro posto em diante não por ideologia ou por adesão partidária.
CC: Lula deveria comparecer ao debate da TV Globo na próxima quinta?
MC: Abstratamente, é sempre bom que os candidatos participem de fóruns, de momentos em que as pessoas são cobradas, são feitas perguntas. Mas isso é uma ficção no Brasil. Já há muitos anos candidatos com determinada probabilidade de vitória preferem não ir porque (o debate) não é mais do que uma espécie de palanque para candidatos de nenhum significado social real.
Se for ao debate da Globo, Lula terá de dar palanque e visibilidade para figuras menores, de ultradireita, que ficarão lá só para falar mal, acusar e atacar. Não vejo nenhuma razão para Lula se expor a esse tipo de situação. Ele apenas será desrespeitado e destratado por gente sem educação e sem adesão a valores democráticos.
Resolver a eleição para presidente da República já no primeiro turno é plausível, mas o desfecho do pleito neste domingo 4 dependerá essencialmente de eleitores dos “três Bs”: baixo interesse, baixa informação e baixo envolvimento. A avaliação é do sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi, em entrevista a CartaCapital.
“Esses eleitores é que definiram o tamanho que Bolsonaro atingiu no primeiro e no segundo turnos da eleição passada”, declarou Coimbra. “Nesta eleição, tudo indica que de novo será essa faixa do eleitorado que definirá se teremos ou não segundo turno — e quem será o futuro presidente da República.”
As pesquisas de intenção de voto mantêm no horizonte a chance de resolução no primeiro turno, que depende de um candidato obter mais de 50% dos votos válidos (excluídos votos nulos e em branco). Segundo um levantamento Nexus/BTG divulgado na segunda-feira 28, Lula (PT) tem 44% das intenções de voto válido, contra 39% de Flávio Bolsonaro (PL).
Confira os principais destaques da entrevista:
CC: É plausível que a eleição termine no primeiro turno?
MC: A possibilidade existe e as razões para isso não são apenas desta eleição, é algo que vem acontecendo há algum tempo, uma tendência de que as eleições acabem se travando entre dois candidatos. A própria instituição do segundo turno criou essa possibilidade de as pessoas pensarem em algo que se resolve logo. A última eleição em que houve uma disputa acirrada para definir quem participaria do segundo turno foi a de 2014, não é tão pouco tempo assim.
Nas últimas eleições, todas foram para o segundo turno sem que houvesse uma disputa para saber quais seriam os candidatos que iriam se defrontar. Temos nesta eleição uma coisa que não é tão comum: nenhum outro candidato mostrou potencial de crescimento. Claro que pesquisa é uma ferramenta limitada, mas o coro de todas as pesquisas mostra que os candidatos do terceiro posto em diante não aconteceram. Temos ex-governador que está nominalmente disputando a eleição e que tem zero no voto espontâneo, o que, além de ser um pouco feio para um governador, sugere que realmente as pessoas não estão pensando em outros nomes.
Aquele escritor de quem eu nunca tinha ouvido falar chegou a ter dois dígitos em pesquisa e hoje está na casa de cinco para baixo. Então, de acordo com a vantagem que um dos dois principais candidatos conseguir, a solução no primeiro turno é perfeitamente possível.
CC: Quais os fatores decisivos daqui até domingo para que a eleição termine no primeiro turno?
MC: Havia em 2022 um aparente consenso das pesquisas de que Lula chegaria muito forte e com chance de decidir no primeiro turno, e que Bolsonaro estava lá atrás. O que aconteceu na hora em que a urna foi aberta? Não foi nada disso.
Pesquisa feita a esta altura tem grande chance de não ter a menor capacidade de nos sinalizar o que efetivamente é relevante. Todo mundo sabe que a eleição será entre Lula e o filho do Bolsonaro, mas a performance de cada um por estado, por região, isso tudo é conversa fiada. Fica uma quantidade anormal de pesquisas. É pesquisa demais, com função cada vez menor.
E o que aconteceu em 2022? Quando chegamos a esta altura — e tudo indica que teremos de novo —, um determinado tipo de eleitor resolveu que estava na hora de tomar uma decisão. Que eleitor é esse? É o de baixo interesse, baixa informação e baixo envolvimento com política.
CC: Quem são essas pessoas?
MC: Pessoas que não acompanham, não conhecem, não se interessam, mas que consideram que é necessário, é justo, é correto que votem. Temos 40% da sociedade brasileira formada por pessoas desses três “Bs”. São pessoas que não acertam uma única pergunta típica de pesquisa de opinião, como: quem é o governador de São Paulo? Quanto tempo dura o mandato de um senador?
Desses eleitores, metade diz que não vai votar e não vota. Quando chega o dia, muda de assunto e vai cuidar de outra coisa, mas não vota.
Esses eleitores é que definiram o tamanho que Bolsonaro atingiu no primeiro e no segundo turnos de 2022. Nesta eleição, tudo indica que de novo será essa faixa do eleitorado que definirá se teremos ou não segundo turno — e quem será o futuro presidente da República.
Foi isso que levou Bolsonaro para frente na eleição passada, e não essa conversa de “antipetismo”, “voto de direita”, “esquerda que trava na reta final da eleição”. Tudo é conversa fiada, porque essa parte do eleitorado não tem relação nenhuma com ideologia e partido.
Existem no mundo inteiro eleitores que não se interessam por política, mas que votam. Nos Estados Unidos, você não é obrigado a votar, então esse tipo de gente já fica em casa. Mas aqui é obrigado a ir. Claro que as sanções são baixas, e é por isso que uma parte grande dessa faixa do eleitorado acaba não indo votar — e tudo indica que neste ano até pode ser mais.
CC: A ausência de candidatos de centro-esquerda dificultaria o segundo turno para Lula?
MC: Certamente a dificuldade para ele seria maior do que para o filho do Bolsonaro, que já está no mapa de eleitores conservadores, direitistas, com as características da maior parte desses outros que estão disputando.
Mas, de novo, não esquecer de que para esse eleitor de sensibilidade político-ideológica muito baixa não tem nenhum problema ter votado no Caiado por ser o governador de seu estado. Então, não votou porque o Caiado é conservador, votou por um tipo bem diferente de razão. Tem muita gente que votará por algum motivo nos candidatos do terceiro posto em diante não por ideologia ou por adesão partidária.
CC: Lula deveria comparecer ao debate da TV Globo na próxima quinta?
MC: Abstratamente, é sempre bom que os candidatos participem de fóruns, de momentos em que as pessoas são cobradas, são feitas perguntas. Mas isso é uma ficção no Brasil. Já há muitos anos candidatos com determinada probabilidade de vitória preferem não ir porque (o debate) não é mais do que uma espécie de palanque para candidatos de nenhum significado social real.
Se for ao debate da Globo, Lula terá de dar palanque e visibilidade para figuras menores, de ultradireita, que ficarão lá só para falar mal, acusar e atacar. Não vejo nenhuma razão para Lula se expor a esse tipo de situação. Ele apenas será desrespeitado e destratado por gente sem educação e sem adesão a valores democráticos.
FONTE: Carta Capital
